quinta-feira, 13 de agosto de 2015

O homem cuja vida era Inexplicável

Era uma vez um homem chamado Mojud. Ele vivia numa cidade onde havia conseguido um emprego como pequeno funcionário público, e tudo levava a crer que terminaria seus dias como Inspetor de Pesos e Medidas.

Um dia, quando estava caminhando pelos jardins de uma antiga construção próxima à sua casa, Khidr, o misterioso guia dos sufis, apareceu para ele, vestido em um verde luminoso e lhe disse:

"Homem de brilhantes perspectivas! Deixe seu trabalho e se encontre comigo na margem do rio dentro de três dias".

E, assim dizendo, desapareceu. Excitado, Mojud procurou seu chefe e lhe disse que ia partir. Todos na cidade logo souberam desse fato e comentaram:

"Pobre Mojud, deve ter ficado louco". 

Mas como havia muitos candidatos a seu posto logo se esqueceram dele. No dia marcado Mojud encontrou-se com Khidr, que disse:

"Rasgue suas roupas e se jogue no rio. Talvez alguém o salve".

Mojud obedeceu, embora se perguntasse se não estaria louco. Mas, como ele sabia nadar, não se afogou, ficou boiando à deriva por um longo trecho antes que um pescador o recolhesse em seu bote, dizendo:

"Homem insensato! A corrente aqui é forte. Que está tentando fazer?".

"Na realidade eu não sei" -  respondeu Mojud.

"Você deve está louco" - disse o pescador - "Mas o levarei à minha cabana de junco próximo ao rio e veremos o que se pode fazer por você".

Quando o pescador descobriu que Mojud era bem instruí-do, passou a aprender com ele a ler e a escrever. Em troca Mojud recebia comida e ajudar o pescador em seu trabalho. 

Alguns meses depois Khidr reapareceu, desta vez junto ao lado da cama de Mojud, e disse: "Levante-se e deixe o pescador. Será provido do necessário". Vestido como pescador, Mojud deixou a cabana e perambulou sem rumo até encontrar uma estrada. 

Ao romper da aurora viu um granjeiro montado num burro.

"Procura trabalho?" - perguntou o granjeiro. - "Estou precisando de um homem que me ajude a trazer algumas compras."

Mojud o acompanhou. Trabalhou para o granjeiro durante quase dois anos, quando aprendeu muito sobre agricultura e pouco sobre outras coisas... Uma tarde, quando estava ensacando lã, Khidr fez nova aparição e disse:
"Deixe esse trabalho, dirija-se à cidade de Mosul e empregue as suas economias para tomar-se mercador de peles".

Em Mosul tomou-se conhecido como o mercador de peles e durante os três anos exerceu seu novo ofício. Havia juntado uma considerável quantia em dinheiro e estava pensando em comprar uma casa, quando Khidr apareceu e disse:

"Dê-me seu dinheiro, afaste-se desta cidade rumo à distante Samarkanda e lá passe a trabalhar para um merceeiro".

Foi o que Mojud fez. Logo em seguida começou a demonstrar sinais incontestáveis de iluminação. Curava enfermos e servia a seu próximo no armazém e nas horas de folga. e seu conhecimento dos mistérios se tornava cada vez mais profundo. 

Sacerdotes, filósofos e outros perguntavam: "Com quem você estudou?"

"É difícil dizer"
- respondia Mojud.

Seus discípulos o perguntavam: "Como iniciou sua carreira?"

"Como um simples funcionário público".


"E deixou seu emprego para dedicar-se à automortificação?"

"Não. Simplesmente deixei meu emprego"
.

Eles não podiam compreendê-lo. 

Pessoas o procuravam querendo escrever sua história. "O que você foi na sua vida?"

"Eu me atirei num rio, me tomei pescador e no meio de uma noite, abandonei uma cabana de junco. Depois disso me virei ajudante de um granjeiro. Enquanto estava ensacando lã, mudei de ideia e fui para a cidade de Mosul, onde me tomei vendedor de peles Economizei algum dinheiro, mas doei tudo. Então vim para Samarkanda, onde trabalhei como merceeiro. E aqui estou agora."

"Mas esse comportamento inexplicável não esclarece de modo algum seus estranhos dons e maravilhosos exemplos" - diziam os seus biógrafos.

"Mas, é assim" - dizia Mojud.

Então, os biógrafos construíram uma história maravilhosa e excitante para Mojud, porque todos os santos devem ter suas histórias e ela deve estar em conformidade com o que o ouvinte deseja e não com as realidades da vida.

E a ninguém é permitido falar de Khidr, diretamente. É por isso que esta história não é verídica, é a representação de uma vida... A vida real de um dos maiores santos sufis.

* Shaykh Ali Farmadhi (falecido em 1078), considerava este conto importante para ilustrar a crença de que o mundo invisível está em diversos lugares, o tempo todo, interpenetrando a realidade comum...     

Histórias da Tradição Sufi (Ed. Dervishe) e
Historias dos Dervcishes (Roça Nova Editora)