quinta-feira, 29 de outubro de 2009

O Homem cuja vida era inexplicável

Era uma vez um homem chamado Mojud. Ele vivia numa cidade onde obtivera um emprego como pequeno funcionário público, e tudo parecia indicar que terminaria sua vida como inspetor de pesos e medidas.


Certo dia quando caminhava ao longo dos jardins de um antigo edifício próximo à sua casa, Khidr, o misterioso Guia dos Sufis, surgiu diante dele, vestido de um verde luminoso. Então o Khidr disse:


"Homem de brilhantes perspectivas! Deixe seu trabalho e se encontre comigo na margem do rio dentro de três dias". 


Excitado, Mojud procurou seu chefe e lhe disse que ia partir. E todos na cidade logo souberam do fato e comentaram:


"Pobre Mojud, deve ter ficado louco."


Mas, como havia muitos candidatos ao posto vago, logo se esqueceram de Mojud.


No dia marcado, Mojud encontrou Khidr, que lhe disse:


"Rasgue suas roupas e se jogue no rio, talvez alguém o salve". 


Mojud obedeceu, embora se perguntasse se não estaria louco.


Já que sabia nadar, não se afogou, mas ficou boiando a deriva um longo trecho da corrente antes que um pescador o recolhesse em seu bote, dizendo:


"Homem insensato! a corrente aqui é muito forte. O que está tentando fazer?" 


Na verdade eu não sei". Respondeu Mojud.


"Vejo que perdeu a razão, mas o levarei à minha casa e ai veremos o que se pode fazer por você."   


Quando o pescador descobriu que Mojud era instruído, passou a aprender com ele a ler e escrever. Em troca, Mojud recebeu alojamento, comida e ajudava o pescador em seu trabalho.


Alguns meses depois, Khidr apareceu novamente, desta vez ao pé do leito de Mojud, e disse:


"Levante-se e deixe a cabana deste pescador, será provido do necessário."


Vestido como um pescador. Mojud deixou imediatamente a humilde cabana e perambulou sem rumo certo até alcançar uma estrada. Ao romper da aurora, viu um granjeiro montado num burro, a caminho do mercado.


"Procura trabalho?". Perguntou  o agricultor. "Estou precisando de um homem que me ajude a trazer algumas compras da cidade."   


Mojud o acompanhou então. Trabalhou para o granjeiro durante quase dois anos, ao fim dos quais aprendeu muitas coisas sobre agricultura.


Uma tarde, quando estava ensacando lã, Khidr fez nova aparição e lhe disse:


"Deixe esse trabalho, dirija-se à cidade de Mosul e empregue suas economias para se converter em mercador de peles."


Em Mosul tornou-se logo conhecido como um negociante de peles, sem voltar a ver Khidr durante os três anos em que exerceu seu novo ofício. Tinha reunido uma considerável quantia e estava pensando em comprar uma casa, quando Khidr lhe apareceu e disse:


"Dê-me seu dinheiro, afaste-se desta cidade rumo a distante Samarkand e lá passe a trabalhar para um merceeiro."


Foi exatamente o que fez Mojud. E logo começou a demonstrar indícios incontestáveis de iluminação, curava os enfermos e servia ao próximo, tanto no armazém quanto nas horas de lazer, o seu conhecimento dos mistérios da vida se tornavam cada vez mais profundo.


Sacerdotes, filósofos e outros, o visitavam indagavam: "Com quem você estudou?" 


"É difícil dizer". Respondia Mojud.


Seus discípulos perguntavam: "Como iniciou sua carreira?"


"Como um pequeno funcionário".


"E deixou o emprego para dedicar-se à automortificação?"

"Não, simplesmente abandonei a carreira.


Eles não podiam compreendê-lo.


Pessoas se acercavam dele, desejosos de escrever a história de sua vida.


"O que tem feito em sua vida?". Indagavam.


"Eu me atirei num rio, fui salvo por um pescador com quem morei e trabalhei. Certa noite, abandonei a sua cabana de junco e me converti num agricultor. Depois larguei meu ofício e me dirigi para Mosul, onde me tornei comerciante de peles, ali economizei algum dinheiro, mas o doei... Então vim para Samarkand, passando a trabalhar para o merceeiro. E aqui estou agora."


"Porém, esse comportamento inexplicável não esclarece de modo  algum seus  estranhos exemplos e dons maravilhosos".  Observavam os biógrafos.

"Eu só sei que foi assim", dizia Mojud.

Então os biógrafos teceram uma história maravilhosa e excitante em torno da figura de Mojud. Porque todos os santos devem ter sua história, esta deve estar de acordo com a curiosidade do ouvinte e não com as realidades da vida.


E a ninguém é permitido falar de Khidr diretamente. É por isso que esta história não é verídica. É uma representação de uma vida. A vida real de um dos maiores santos sufis.


O homem cuja vida era inexplicável 


O Xeque Ali Farmadhi (falecido em 1078) reputava importante este conto para exemplificar a crença sufi de que o 'mundo invisível' está todo o tempo, em vários lugares, interpenetrando a realidade comum. Diz ele: "As Coisas que encaramos como inexplicáveis são, na verdade, devidas a tal intervenção. As pessoas não reconhecem a participação desse 'mundo'  no seu, por acreditarem conhecer a causa real dos acontecimentos. No entanto, não o conhecem. Somente quando advertem a possibilidade de outra dimensão que atua às vezes sobre as experiências comuns, é que tal dimensão pode tornar-se acessivel a elas."


Histórias dos Dervixes, Idries Shah.

quinta-feira, 22 de outubro de 2009

A Jóia Preciosa

Num  longínquo reino de perfeição, um rei poderoso e justo tinha uma esposa e duas crianças maravilhosas, um filho e uma filha. E todos viviam em grande felicidade.


Um dia a pai chamaou os filhos para junto de si e lhes disse:


"Chegou para vocês, como chega para todos, o momento em que deverão partir em direção a um  outro mundo, a uma distância infinita. Lá vocês irão procurar uma jóia preciosa, e assim que a encontrarem voltarão, trazendo-a com vocês."


Cercados de grande segredo, os viajantes foram levados a uma nova e estranha terra, onde quase todos os habitantes viviam na obscuridade e na noite de seu sono.


O choque foi tão grande que o irmão e a irmã se separaram, perderam progressivamente o contato entre eles, e logo esqueceram tudo sobre sua origem.


Como os demais habitantes daquele país, eles iam de um lado para outro, dormindo profundamente.


De tempos em tempos, sonolentos, viam sombras, miragens distantes do país de onde tinham vindo, ou então sonhavam com uma jóia.


Mas na condição em que se encontravam eram incapazes de lembrar-se da realidade, e pouco a pouco foram tomando os sonhos por ilusões.


Quando o rei tomou conhecimento disso, considerou a difícil situação em que seus filhos se encontravam e decidiu mandar um servidor de confiança para ajudá-los. Este era um sábio e levou-lhes uma mensagem:


"Lembrem-se da missão de vocês. Acordem do sono em que submergiram e fiquem unidos."


Logo que ouviram a mensagem as duas crianças acordaram e, graças a ajuda do guia enviado para libertá-los, eles puderam vencer os grandes perigos que ainda as separavam da jóia preciosa. Quando a encontraram, o príncipe e a princesa voltaram para o país da luz e lá foram mais felizes do que antes.


Histórias da Tradição Sufi, Edições Dervish 

quinta-feira, 15 de outubro de 2009

O rei sem ofício

Era uma vez um rei que havia esquecido o velho conselho dos sábios, segundo o qual quem nasce na comodidade e no conforto precisa fazer um esforço pessoal maior do que os outros. Mesmo assim era um rei justo e popular.


Um dia, quando viajava para visitar uma de suas terras mais distantes, uma tempestade desabou e separou o seu barco de sua escolta. A tempestade serenou depois de sete dias de fúria. o barco havia afundado e os únicos sobreviventes do naufrágio foram o rei e sua pequena filha, pois eles de algum modo, haviam conseguido subir numa balsa.


Depois de muitas horas, a balsa foi jogada numa praia de um país totalmente desconhecido para os viajantes. Inicilamente foram recolhidos por pescadores que cuidaram deles e que depois de algum tempo disseram:


"Somos muito pobres e não podemos continuar a mantê-los. Se caminharem para o interior, quem sabe poderão encontrar os meios para ganhar a vida."


Agradecendo aos pescadores e sentindo pesar por não poder conviver com eles, o rei começou a vagar pela região. Ele e a princesa foram de aldeia em aldeia, de povoado em povoado, buscando comida e ajuda. Não aparentavam ser melhores do que mendigos e assim eram tratados.


Às vezes conseguiam alguns pedaços de pão, outras vezes palha seca para dormir.


Cada vez que o rei procurava melhorar a sua situação, pedindo trabalho,perguntavam-no:


"O que você sabe fazer?"  


O rei então se dava conta de que não era capaz de realizar as tarefas exigidas, e retomava seu caminho.


Em todo o país existiam poucas oportunidades de tarefas manuais, pois havia muitos trabalhadores especializados. À medida que iam de um lugar para outro, o rei se dava conta de que ser rei sem país era uma condição inútil. Ele refletia cada vez mais sobre o provérbio dos anciões, que dizia:


"Só pode ser considerado seu aquilo que puder sobreviver a um naufrágio."


Depois de três anos nessa existência miserável e sem futuro, ambos se encontravam pela primeira vez numa fazenda cujo proprietário estava procurando alguém para que cuidasse de suas ovelhas.


Ele viu o rei e a princesa e lhes perguntou:


"Sabem cuidar de ovelhas?"
  
"Não", Respondeu o rei.


"Você é honesto e por isso darei a você uma oportunidade de ganhar a vida". Disse o fazendeiro.


O fazendeiro os enviou ao campo com algumas ovelhas, logo aprenderam que tudo o que precisavam fazer era protegê-las dos lobos e cuidar para que não se perdessem.


Uma cabana lhes foi dada, e conforme os anos foram passando, orei recuperou algo de sua dignidade, embora não tenha recuperado a sua felicidade. A princesa se transformou numa jovem bela como uma fada. Como ganhavam apenas o necessário para viver, não podiam planejar ainda o retorno ao seu país.


Um dia, quando havia saido para caçar, o sultão daquele país viu a moça e enamorou-se dela. Então enviou um representante ao pai da jovem, para pedi-la em casamento.


"Ó camponês", disse o mensageiro, "o sultão, meu amo e senhor, pede a mão de sua filha em casamento."


"E o que ele sabe fazer?, qual é o seu ofício e como ele pode ganhar a vida?" - perguntou o ex rei.


"Idiota! Vocês camponeses são todos iguais", gritou o mensageiro. Você não entende que um rei não precisa ter ofício, pois sua habilidade consiste em conduzir reinos, e que você foi eleito para uma honra que ordinariamente estaria muito além de qualquer esperança possível para as pessoas comuns?"   


"Tudo o que sei", disse o rei pastor, "é que a menos que o seu amo, sendo sultão ou não, possa ganhar a vida, não será marido para minha filha. Eu sei uma ou duas coisas a respeito do valor das habilidades."


O mensageiro regressou e contou ao seu amo o que o estúpido camponês havia dito, acrescentando:


"Não devemos nos preocupar com pessoas como essa gente, senhor, porque elas não sabem nada sobre as ocupações dos reis".


Mesmo assim, uma vez recobrado de sua surpresa, o sultão disse:


"Estou loucamente apaixonado pela filha desse pastor e por isso devo estar preparado par fazer qualquer coisa que seu pai ordene, a  fim de casar-me com ela."      
   
Deixou o império nas mãos de um regente e foi ser aprendiz de um tecelão de tapetes. depois de quase um ano já dominava a arte de fazer tapetes. Com alguns de seus próprios trabalhos foi até a cabana do rei-pastor. Apresentou-se diante dele dizendo:


"Sou o sultão desse país e desejo casar-me com sua filha, se ela me aceitar.Tendo recebido a mensagem, de que você requer de um futuro genro habilidades úteis, estudei tecelagem, estes são alguns exemplos do meu  trabalho."


"Quanto tempo você levou para fazer este tapete?"


"Três semanas"


"Quando o vender, quanto tempo você poderá viver com o que obtiver?"


"Três meses"


"Você pode se casar com minha filha, se ela quiser aceitá-lo"


O sultão ficou encantado e feliz quando a princesa consentiu em casar-se com ele. 
    
"Seu pai, mesmo sendo um camponês, é um homem sábio e sagaz."


"Um camponês pode ser tão inteligente quanto um sultão, mas um rei, se teve as experiências necessárias, pode ser tão sábio como o camponês mais sagaz."     
    
O sultão e a princesa se casaram com todo o esplendor. O rei-pastor, com a ajuda de seu genro, regressou ao seu país, onde ficou conhecido para sempre como um monarca bom e inteligente, que nunca se cansou de alertar a todos e a cada um de seus súditos para que aprendessem um ofício útil.


Histórias da Tradição Sufi  
   
         

sábado, 10 de outubro de 2009

Os cegos e o elefante

Um pouco além de Ghor havia uma cidade. Todos os que ali viviam eram cegos. Certo dia surgiu um rei com seu séquito. Trazia seu exercito e acampou fora da cidade, no deserto. Viera com eles um elefante de grande porte, usado pelo rei para atacar e para intensificar o temor do povo.

As pessoas do lugar estavam ansiosas para ver o elefante, e alguns cegos daquela população cega se precipitaram como loucos procurando encontrá-lo. E assim que o acharam, se puseram a tateá-lo.

Cada um pensou saber algo sobre o animal, porquanto podia tocar uma parte dele.

Quando retornaram para junto de seus concidadãos, estes logo formaram grupinhos ao seu redor, ávidos de esclarecimentos. Todos estavam ansiosos, buscando, equivocadamente, conhecer a verdade daqueles que estavam enganados.

Perguntaram sobre a forma e aspecto do elefante, escutando com interesse tudo que lhes era dito.

O homem a quem coubera tocar a orelha do elefante foi indagado sobre a natureza particular do animal.  E ele informou, "é uma coisa grande rugosa, larga e grossa como um tapete felpudo."

Aquele que apalpara a tromba disse, "eu conheço a realidade dos fatos, trata-se de um tubo reto e oco, horrível e destruidor."

Um outro, que tocara as patas declarou, "é algo poderoso e firme como uma pilastra."

Cada um tinha conhecido e tocado apenas uma parte das muitas partes do animal. E cada um o percebera erroneamente. Ninguém conhecia o todo, já que o conhecimento não faz companhia aos cegos. Todos tinham imaginado algo, mas algo equivocado.

A criatura humana não está informada acerca da divindade. Para tal ciência o intelecto comum não oferece nenhum caminho.

*Este conto é mais conhecido na versão de Rumi, "O elefante na casa escura," transcrita do Masnavi. Hakim Sanai, mestre de Rumi, nos oferece essa versão anterior no primeiro livro de seu clássico, "O Jardim Amuralhado da Verdade" (1150).

Histórias dos Dervixes - Idries Shah

quinta-feira, 8 de outubro de 2009

A lenda das areias

Vindo desde as suas origens em distantes montanhas, após passar por inúmeros acidentes de terrenos nas regiões campestres, um rio finalmente alcançou as areias do deserto. E do mesmo modo como vencera as outras barreiras, o rio tentou atravessar esta de agora, mas se deu conta de que suas águas mal tocavam a areia nela desapareciam.


Estava convicto, no entanto, de que fazia parte do seu destino cruzar aquele deserto, embora não visse como fazê-lo. Então uma voz misteriosa, saída do próprio deserto, sussurrou:


"O vento cruza as areias do deserto,  o mesmo pode fazer o rio."


O rio objetou estar se arremessando contra as areias, sendo assim absorvido, enquanto que o vento podia voar, conseguindo dessa maneira atravessar o deserto.  


"Arrojando-se com violência como vem fazendo não conseguirá cruzá-lo. Assim desaparecerá ou se transformará num pântano. Deve permitir que o vento o conduza a seu destino."


"Mas como isso pode acontecer?"


"Consentindo em ser absorvido pelo vento."


Tal sugestão não era aceitável para o rio. Afinal de contas, ele nunca fora absorvido até então. Não desejava perder a sua individualidade. Uma vez a tendo perdido, como se poderá saber se a recuperaria mais tarde?


"O vento desempenha essa função" - disseram as areias - "Eleva a água, a conduz sobre o deserto e depois a deixa cair. caindo na forma de chuva, a água novamente se converte num rio."


"Como posso saber que isso é verdade?"


"Pois assim é, se não acredita, não se tornará outra coisa senão um pântano, ainda isto levaria muitos e muitos anos. E um pântano não é certamente a mesma coisa que um rio."


"Mas não posso continuar sendo o mesmo rio que sou agora?"


"Você não pode, em caso algum, permanecer assim" - retrucou a voz - "Sua parte essencial é transportada e forma um rio novamente. Você é chamado assim ainda hoje, por não saber qual a sua parte essencial."    


Ao ouvir tais palavras, certos ecos começaram a ressoar nos pensamentos mais profundos do rio. Recordou vagamente um estágio em que ele, ou uma parte dele, não sabia qual, fora transportada nos braços do vento. Também se lembrou, ou lhe pareceu assim, de que isso o que devia fazer, mesmo que não parecesse ser a coisa mais natural.


E o rio elevou então seus vapores nos acolhedores braços do vento, que suave e facilmente o conduziu para o alto e para bem longe, deixando-o cair suavemente tão logo tinham alcançado o topo de uma montanha, milhas e milhas distante. E porque tivera suas dúvidas, o rio pôde recordar e gravar com mais firmeza em sua mente os detalhes daquela sua experiência. E ponderou:


"Sim agora conheço a minha verdadeira identidade."


O rio estava fazendo seu aprendizado, mas as areias sussurraram:


"Nos temos o conhecimento porque vemos essa operação ocorrer dia-após-dia e porque nós, as areias, nos estendemos por todo o caminho que vai desde as margens do rio até a montanha."


E é por isso que se diz, que o caminho pelo qual o Rio da Vida tem de seguir em sua travessia, está escrito nas areias.


Histórias dos Dervixes - Idries Shah
  

quinta-feira, 1 de outubro de 2009

Quão longe se pode estar utilmente da verdade?


N
asrudin viu alguns patos de aspecto apetitoso brincando num lago. Tentou pegá-los, mas eles conseguiram fugir.

Então colocou uns pedaços de pão na água e os foi comendo.

Algumas pessoas perguntaram o que ele estava fazendo.

"Estou tomando sopa de pato", respondeu o Mullá.

O HOMEM CUJA HISTÓRIA ERA INESPLICÁVEL

Era uma vez um homem chamado Mojud. Ele vivia numa cidade onde havia conseguido um emprego como pequeno funcionário público, e tudo levava...