O rei sem ofício

Era uma vez um rei que havia esquecido o velho conselho dos sábios, segundo o qual quem nasce na comodidade e no conforto precisa fazer um esforço pessoal maior do que os outros. Mesmo assim era um rei justo e popular.


Um dia, quando viajava para visitar uma de suas terras mais distantes, uma tempestade desabou e separou o seu barco de sua escolta. A tempestade serenou depois de sete dias de fúria. o barco havia afundado e os únicos sobreviventes do naufrágio foram o rei e sua pequena filha, pois eles de algum modo, haviam conseguido subir numa balsa.


Depois de muitas horas, a balsa foi jogada numa praia de um país totalmente desconhecido para os viajantes. Inicilamente foram recolhidos por pescadores que cuidaram deles e que depois de algum tempo disseram:


"Somos muito pobres e não podemos continuar a mantê-los. Se caminharem para o interior, quem sabe poderão encontrar os meios para ganhar a vida."


Agradecendo aos pescadores e sentindo pesar por não poder conviver com eles, o rei começou a vagar pela região. Ele e a princesa foram de aldeia em aldeia, de povoado em povoado, buscando comida e ajuda. Não aparentavam ser melhores do que mendigos e assim eram tratados.


Às vezes conseguiam alguns pedaços de pão, outras vezes palha seca para dormir.


Cada vez que o rei procurava melhorar a sua situação, pedindo trabalho,perguntavam-no:


"O que você sabe fazer?"  


O rei então se dava conta de que não era capaz de realizar as tarefas exigidas, e retomava seu caminho.


Em todo o país existiam poucas oportunidades de tarefas manuais, pois havia muitos trabalhadores especializados. À medida que iam de um lugar para outro, o rei se dava conta de que ser rei sem país era uma condição inútil. Ele refletia cada vez mais sobre o provérbio dos anciões, que dizia:


"Só pode ser considerado seu aquilo que puder sobreviver a um naufrágio."


Depois de três anos nessa existência miserável e sem futuro, ambos se encontravam pela primeira vez numa fazenda cujo proprietário estava procurando alguém para que cuidasse de suas ovelhas.


Ele viu o rei e a princesa e lhes perguntou:


"Sabem cuidar de ovelhas?"
  
"Não", Respondeu o rei.


"Você é honesto e por isso darei a você uma oportunidade de ganhar a vida". Disse o fazendeiro.


O fazendeiro os enviou ao campo com algumas ovelhas, logo aprenderam que tudo o que precisavam fazer era protegê-las dos lobos e cuidar para que não se perdessem.


Uma cabana lhes foi dada, e conforme os anos foram passando, orei recuperou algo de sua dignidade, embora não tenha recuperado a sua felicidade. A princesa se transformou numa jovem bela como uma fada. Como ganhavam apenas o necessário para viver, não podiam planejar ainda o retorno ao seu país.


Um dia, quando havia saido para caçar, o sultão daquele país viu a moça e enamorou-se dela. Então enviou um representante ao pai da jovem, para pedi-la em casamento.


"Ó camponês", disse o mensageiro, "o sultão, meu amo e senhor, pede a mão de sua filha em casamento."


"E o que ele sabe fazer?, qual é o seu ofício e como ele pode ganhar a vida?" - perguntou o ex rei.


"Idiota! Vocês camponeses são todos iguais", gritou o mensageiro. Você não entende que um rei não precisa ter ofício, pois sua habilidade consiste em conduzir reinos, e que você foi eleito para uma honra que ordinariamente estaria muito além de qualquer esperança possível para as pessoas comuns?"   


"Tudo o que sei", disse o rei pastor, "é que a menos que o seu amo, sendo sultão ou não, possa ganhar a vida, não será marido para minha filha. Eu sei uma ou duas coisas a respeito do valor das habilidades."


O mensageiro regressou e contou ao seu amo o que o estúpido camponês havia dito, acrescentando:


"Não devemos nos preocupar com pessoas como essa gente, senhor, porque elas não sabem nada sobre as ocupações dos reis".


Mesmo assim, uma vez recobrado de sua surpresa, o sultão disse:


"Estou loucamente apaixonado pela filha desse pastor e por isso devo estar preparado par fazer qualquer coisa que seu pai ordene, a  fim de casar-me com ela."      
   
Deixou o império nas mãos de um regente e foi ser aprendiz de um tecelão de tapetes. depois de quase um ano já dominava a arte de fazer tapetes. Com alguns de seus próprios trabalhos foi até a cabana do rei-pastor. Apresentou-se diante dele dizendo:


"Sou o sultão desse país e desejo casar-me com sua filha, se ela me aceitar.Tendo recebido a mensagem, de que você requer de um futuro genro habilidades úteis, estudei tecelagem, estes são alguns exemplos do meu  trabalho."


"Quanto tempo você levou para fazer este tapete?"


"Três semanas"


"Quando o vender, quanto tempo você poderá viver com o que obtiver?"


"Três meses"


"Você pode se casar com minha filha, se ela quiser aceitá-lo"


O sultão ficou encantado e feliz quando a princesa consentiu em casar-se com ele. 
    
"Seu pai, mesmo sendo um camponês, é um homem sábio e sagaz."


"Um camponês pode ser tão inteligente quanto um sultão, mas um rei, se teve as experiências necessárias, pode ser tão sábio como o camponês mais sagaz."     
    
O sultão e a princesa se casaram com todo o esplendor. O rei-pastor, com a ajuda de seu genro, regressou ao seu país, onde ficou conhecido para sempre como um monarca bom e inteligente, que nunca se cansou de alertar a todos e a cada um de seus súditos para que aprendessem um ofício útil.


Histórias da Tradição Sufi  
   
         

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