quinta-feira, 26 de novembro de 2009

O PRÍNCIPE, O MESTRE E A ÁGUIA


Era uma vez uma rainha cujo marido havia morrido quando seu filho tinha somente cinco anos. Ela foi então nomeada regente do reino até que seu filho completasse 18 anos e fosse capaz de governar.
O único defeito da rainha era que amava demasiadamente seu filho, Hasan, e lhe permitia fazer qualquer coisa que desejasse. E assim, apesar de ser uma boa monarca, o seu filho ficava mais e mais teimoso e cheio de caprichos à medida que crescia.
Um dia a rainha chamou o seu grão-vizir e lhe disse:
“Diga-me francamente, o que posso fazer com meu filho? É insolente, orgulhoso e muito difícil de controlar. O que posso fazer para corrigir os seus defeitos agora, antes que seja demasiado tarde?”
O grão-vizir respondeu:
“Coloque o príncipe aos cuidados de um mestre, assim ele poderá adquirir sabedoria.”
“Onde há um mestre que possa ajudar meu filho?”
“Neste momento encontra-se na cidade um velho homem sábio que dirige Al Azar, a universidade do Islã. Irei falar-lhe, direi que o príncipe necessita do seu ensinamento e talvez ele queira vir.”
“Traga-o imediatamente, se puder” – disse a rainha.
Então, o grão-vizir partiu e logo retornou com o mestre, que tomou o príncipe sob os seus cuidados.
Todos os dias o ancião e o menino sentavam-se para estudar.
O mestre lhe contava sobre as maravilhas do mundo, da sabedoria do sagrado Corão e da ciência exata da álgebra.
Todas as semanas a rainha mandava buscar o mestre e perguntava:
“Como está progredindo o meu filho?”
O mestre sacudia a cabeça e se retirava.
Um dia a rainha lhe perguntou:
“Meu filho agora está progredindo, mestre?”
“Ele ainda não aprendeu que um príncipe deve ser humilde, que um rei é um servidor de seu povo e que não há poder a não ser em Deus.”
“O que podemos fazer?” – perguntou a rainha.
“Majestade, deixe-me levá-lo para viajar comigo, se pudermos estar mais perto da natureza talvez isso ajude a mudar o seu caráter.”
A rainha aceitou, os dois partiram vestidos com roupas simples como as que usam os andarilhos.
No fim do primeiro dia de viagem, quando se sentaram para fazer café ao lado de um pequeno fogo, dois pássaros apareceram como do nada, pousaram sobre o alforje do ancião e começaram a gorjear.
“Faz muitos anos que aprendi a linguagem dos pássaros, mas agora me arrependo de tê-lo feito.”
“Por quê?” – perguntou o príncipe.
A princípio o mestre não queria explicar a Hasan o que os pássaros haviam dito, mas o menino insistiu tanto que afinal ele falou:
“O primeiro pássaro estava dizendo que no tempo em que fores rei haverá grande regozijo entre os pássaros quem comem frutas, pois os jardins e os hortos serão abandonados e os pássaros poderão alimentar-se em paz. Ninguém os incomodará porque todo o povo destas terras terão ido embora. Ninguém irá querer viver sob um reinado tão impopular.”
“Que dizia o outro pássaro?” – perguntou Hasan.
“O segundo pássaro disse que ele também ficará contente, pois haverá muitos gafanhotos para comer. Não haverá gente suficiente para atear fogo nos campos e afugentar os gafanhotos quando eles chegarem.”
No dia seguinte chegaram a um oásis omde os camelos estavam começando a fazer ruídos, como resmungos, entre si. O ancião sorriu ao escutá-los.
O que estão dizendo os camelos? – perguntou o príncipe.
A principio o mestre não quis responder, mas Hasan insistiu e finalmente ele falou:
“Eles estão se queixando porque quando fores rei haverá tanta gente aqui dando de beber aos animais e preparando-se para abandonar o país para viver em outro lugar que será muito difícil para eles virem beber” – disse o mestre.
O príncipe e o ancião seguiram por alguns dias até que pararam ao pé de uma montanha muito alta onde, sobre uma ponta rochosa, havia um ninho de filhotes de águia.
Ao se aproximarem, puderam ouvir a águia piando a seus filhotes, o ancião traduziu:
“Ela está dizendo a seus jovens filhos que quando ficarem adultos e tu estiveres no trono deverão caçar ovelhas nos reinos vizinhos, pois as daqui estarão magras e fracas. As cobras e as lagartixas tomarão sol entre ruínas da tua capital e a grande mesquita estará vazia às sextas-feiras, quando tu fores rei. A menos...”
O mestre parou de falar, mas Hasan lhe disse:
“Por favor, diga-me o que disse a águia.”
“Ela disse que se corrigires tua conduta agora e melhorares dia a dia. Então teu nome será querido e teu reino será grande e feliz.”
O príncipe não falou, mas o mestre viu que estava refletindo sobre tudo que havia ocorrido.
“Voltamos agora ao palácio para continuarmos com os nossos estudos?” – perguntou o mestre.
Hasan concordou.
Regressaram pelo mesmo caminho que tinham ido e o mestre alegrava-se em ver que seu aluno era cada dia mais amável e reflexivo. Finalmente, o príncipe parecia haver compreendido o que significavam as suas lições e agora realmente se esforçava por aprender.
O ancião foi ver a rainha e falou:
“Agora eu posso partir, pois o príncipe está preparando-se para transformar-se em rei. Será um bom soberano, porque agora sabe que antes de poder governar os outros ele deve ser capaz de governar a si mesmo.”
A rainha, encantada, ofereceu-lhe um posto na corte, mas o ancião disse:
“Não. Tenho que continuar meu caminho, pois ainda tenho muito trabalho a fazer.”
Quando chegou o tempo em que se tornou rei, Hasan recordou as coisas que seu mestre lhe havia ensinado e governou bem e sabiamente até o final de sua vida.  

Extraído da obra: Histórias da Tradição Sufi
Edições Dervish

quinta-feira, 19 de novembro de 2009

A História de Mushkil Gushá



Era uma vez, a menos de mil milhas daqui, um pobre lenhador viúvo, que vivia com sua pequena filha. Todos os dias costumava ir às montanhas cortar lenha, que levava para casa e atava em feixes. Depois da primeira refeição, caminhava até o povoado mais próximo, onde vendia a lenha e descansava um pouco antes de voltar para casa. Um dia, ao chegar em casa, já muito tarde, a menina lhe disse:
- Pai, de vez em quando gostaria de ter uma comida melhor, em maior quantidade e mais variada.


- Está bem, minha filha, amanhã levantarei mais cedo do que de costume, irei mais alto nas montanhas, onde há mais lenha, e trarei uma quantidade maior do que a habitual. Voltarei mais cedo para casa, atarei os feixes mais depressa e irei logo ao povoado vendê-los para conseguirmos mais dinheiro. E lhe trarei uma porção de coisas deliciosas.


Na manhã seguinte, o lenhador levantou-se antes da aurora e partiu para as montanhas. Trabalhou arduamente cortando lenha e fez um feixe enorme, que carregou nos ombros até sua casa.


Ao chegar era ainda muito cedo. Então, colocou a carga no chão e bateu à porta, dizendo:


- Filha, filha, abra a porta. Estou com sede e fome; preciso comer alguma coisa antes de ir para o mercado.


Mas a porta continuou fechada. O lenhador estava tão cansado que se deitou no chão, ao lado do feixe de lenha, e logo adormeceu. A menina, esquecida da conversa da noite anterior, dormia profundamente.


Quando o lenhador acordou, algumas horas depois, o sol já estava alto. Bateu novamente à porta e disse:


- Filha, filha, abra logo. Preciso comer alguma coisa antes de ir ao mercado vender a lenha, pois já é muito mais tarde do que de costume.

Mas a menina que tinha esquecido completamente a conversa da noite anterior, tinha se levantado, arrumado a casa e saíra para dar um passeio. Em seu esquecimento, e supondo que o pai já tivesse ido para o povoado, deixou a porta da casa fechada.



Assim, o lenhador disse a si mesmo:


- Já é muito tarde para ir à cidade. Voltarei para as montanhas e cortarei outro feixe de lenha, que trarei para casa, e amanhã terei carga em dobro para levar ao mercado.


O lenhador trabalhou duro aquele dia, cortando e enfeixando lenha nas montanhas. Já era noite quando chegou em casa com a lenha nos ombros. Pôs o feixe atrás da casa, bateu à porta e disse:


- Filha, filha, abra a porta. Estou cansado e não comi nada o dia todo. Trago uma dupla carga de lenha, que espero levar ao mercado amanhã. Preciso dormir bem esta noite para recuperar minhas forças.


Mas não houve resposta, pois a menina, sentindo muito sono ao voltar do passeio, preparou sua comida e foi para a cama. A princípio, ficara preocupada com a ausência do pai, mas tranqüilizou-se logo, pensando que ele passaria a noite no povoado.


Cansado, faminto e com sede, vendo que não podia entrar em casa, o lenhador deitou-se novamente ao lado da lenha. Apesar de preocupado com o que poderia estar acontecendo com a filha, não conseguiu ficar acordado: adormeceu logo. Mas, como estava com muito frio, muita fome e muito cansado, acordou bem cedo na manhã seguinte, antes mesmo de o dia clarear.


Sentou-se, olhou ao redor, mas não conseguiu ver nada. Mas, nesse momento, aconteceu uma coisa estranha. Pareceu-lhe ouvir uma voz que dizia:


- Depressa! depressa! Deixa tua lenha e vem por aqui. Se necessitas muito e desejas o suficiente, terás um alimento delicioso.


O lenhador levantou-se e caminhou na direção de onde vinha a voz. Andou, andou e andou, mas não encontrou nada.


Então sentiu mais cansaço, frio e fome do que antes e, além do mais, estava perdido. Tivera muitas esperanças, mas isso não parecia tê-lo ajudado. Ficou triste, com vontade de chorar, mas percebeu que chorar também não o ajudaria. Assim, deitou-se e adormeceu. Logo depois acordou novamente. Sentia frio e fome demais para poder dormir. Foi então que lhe ocorreu narrar a si mesmo, como se fosse um conto, tudo o que tinha acontecido desde que a filha lhe pedira um tipo de comida diferente.

Mal terminou sua história, pareceu-lhe ouvir outra voz, vinda de algum lugar no alto, como se saísse do amanhecer, que dizia:



- Velho homem, que fazes aqui sentado?


- Estou me contando minha própria história - respondeu o lenhador.


- E como é ela?


O lenhador repetiu sua narração.


- Muito bem - disse a voz - fecha os olhos e sobe os degraus.


- Mas não vejo degrau algum - disse o velho.


- Não importa, faz o que te digo - ordenou a voz.


O homem fez o que lhe fora ordenado. Mal fechou os olhos, descobriu que estava de pé e, levantando o pé direito, sentiu que debaixo dele havia algo semelhante a um degrau. Começou a subir o que parecia ser uma escada. De repente os degraus começaram a mover-se - moviam-se muito rapidamente - e a voz lhe disse:

- Não abra os olhos até que eu ordene.


Não se passara muito tempo, quando a voz mandou que o velho abrisse os olhos. Ao fazê-lo, o lenhador achou-se num lugar que parecia um deserto, com um sol escaldante acima dele. Estava rodeado de montes e montes de pedrinhas de todas as cores: vermelhas, verdes, azuis, brancas. Mas parecia estar só; olhou em volta e não conseguiu ver ninguém. Então, a voz começou a falar de novo:



- Apanha todas as pedras que puderes, fecha os olhos e desce os degraus.

O lenhador fez o que lhe mandavam e, quando a voz ordenou que abrisse os olhos novamente, encontrou-se diante da porta de sua própria casa. Bateu à porta, e a sua filha veio atender. Ela lhe perguntou por onde ele tinha andado, e o pai lhe contou o ocorrido, embora a menina mal entendesse o que ele dizia, porque tudo lhe parecia muito confuso.



Entraram em casa e a menina e o seu pai repartiram a última coisa que lhes restava para comer: um punhado de tâmaras secas. Quando terminaram a comida, o velho achou que estava novamente ouvindo uma voz, uma voz igual àquela que o mandara subir os degraus.


- Embora ainda não o saibas - disse a voz - foste salvo por Mushkil Gushá. Lembra-te, Mushkil Gushá está sempre aqui. Promete a ti mesmo que todas as quintas-feiras, à noite, comerás umas tâmaras, e darás outras a alguma pessoa necessitada, a quem contarás a história de Mushkil Gushá. Ou darás um presente, em seu nome, a alguém que ajude os necessitados. Promete que a história de Mushkil Gushá nunca, nunca será esquecida. Se fizeres isso, e o mesmo fizerem as pessoas a quem contares a história, os que tiverem verdadeira necessidade sempre encontrarão seu caminho.


O lenhador então colocou todas as pedras que havia trazido do deserto num canto do casebre. Pareciam simples pedras, e ele não soube o que fazer com elas. No dia seguinte, levou seus dois enormes feixes de lenha ao mercado e os vendeu facilmente, por ótimo preço. Ao voltar para casa, levava para sua filha uma porção de iguarias deliciosas que ela jamais havia provado antes. Quando terminaram de comer, o velho lenhador disse:


- Agora vou lhe contar a história de Mushkil Gushá. Mushkil Gushá significa "O dissipador de todas as dificuldades". Nossas dificuldades desapareceram por causa de Mushkil Gushá, e devemos lembrá-lo sempre.

Durante uma semana o homem seguiu sua rotina. Ia às montanhas, trazia lenha, comia alguma coisa, levava a lenha ao mercado e a vendia. Sempre encontrava comprador, sem dificuldade.



Mas chegou a quinta-feira seguinte e, como é comum entre os homens, o lenhador se esqueceu de contar a história de Mushkil Gushá. Nessa noite, já tarde, apagou-se o fogo na casa dos vizinhos. E, como não tinham com que voltar a acendê-lo, foram à casa do lenhador e disseram:

- Vizinho, vizinho, por favor, dê-nos um pouco de fogo dessas suas lâmpadas maravilhosas que vemos brilhar através da janela.



- Que lâmpadas? - perguntou o lenhador.


- Venha aqui fora e verás - responderam.


O lenhador saiu e viu claramente a variedade de luzes que, vindas de dentro, brilhavam através de sua janela. Entrou e viu que a luz saía do monte de pedras que havia posto num canto. Mas os raios de luz eram frios e era impossível usá-los para acender fogo. Então, tornou a sair e disse:

- Sinto muito, vizinhos, não tenho fogo - e bateu-lhes a porta no nariz.

Os vizinhos ficaram aborrecidos e surpresos e voltaram para casa resmungando. E aqui eles abandonam nossa história.



Rapidamente, o lenhador e sua filha, com medo que alguém visse o tesouro que possuíam, cobriram as brilhantes luzes com todos os trapos que encontraram. Na manhã seguinte, ao destampar as pedras, descobriram que eram gemas luminosas e preciosas.


Uma a uma, levaram-nas às cidades dos arredores, onde as venderam por um preço enorme. Então, o lenhador decidiu construir um esplêndido palácio para ele e sua filha.


Escolheram um lugar que ficava exatamente na frente do castelo do rei de seu país. Pouco tempo depois, um edifício maravilhoso estava construído.

O rei tinha uma filha muito bonita que uma manhã, ao acordar, viu o castelo, que parecia de contos de fadas, bem em frente ao de seu pai. Muito surpresa, perguntou a seus criados:



- Quem construiu esse castelo? Com que direito fazem uma coisa dessas tão perto do nosso lar?

Os criados saíram e investigaram. Ao regressar, eles contaram à princesa tudo o que conseguiram saber.



A princesa, muito zangada, mandou chamar a filha do lenhador. Porém, quando as duas meninas se conheceram e se falaram, logo tornaram-se boas amigas. Encontravam-se todos os dias e iam nadar e brincar juntas num regato que o rei mandara fazer para a princesa.


Alguns dias depois do primeiro encontro, a princesa tirou um colar lindo e valioso e pendurou-o numa árvore à beira do regato. Na volta, esqueceu-se de apanhá-lo e, ao chegar em casa, pensou que o tinha perdido. Refletindo melhor, porém, concluiu que tinha sido roubado pela filha do lenhador. Contou tudo ao pai, que mandou prender o lenhador e confiscou-lhe todos os bens. O homem foi posto na prisão, e sua filha levada para um orfanato. 

Como era costume no país, depois de algum tempo o lenhador foi retirado de sua cela e levado para praça pública, onde o acorrentaram a um poste, tendo pendurado ao pescoço um cartaz onde se lia: “E isto que acontece a quem rouba dos reis.” 



A princípio, as pessoas juntavam-se à sua volta zombando dele e atirando-lhe coisas. O lenhador estava muito infeliz. Porém, como é comum entre os homens, logo se acostumaram com o velho sentado junto ao poste e lhe prestavam cada vez menos atenção. Às vezes lhe atiravam restos de comida, às vezes nem mesmo isso.


Uma tarde, ouviu alguém dizer que era quinta-feira. De imediato veio-lhe à mente o pensamento de que logo seria a noite de Mushkil Gushá, "O dissipador de todas as dificuldades", a quem há tanto tempo se esquecera de comemorar. No mesmo instante em que esse pensamento lhe chegou à mente, um homem caridoso que passava jogou-lhe uma moeda.

- Generoso amigo - chamou-o o lenhador - você me deu dinheiro que para mim não tem utilidade alguma. Mas se, em sua generosidade, puder comprar uma ou duas tâmaras e vir sentar-se comigo para comê-las, eu lhe ficaria eternamente grato.



O homem saiu e comprou algumas tâmaras, sentou-se a seu lado e comeram juntos. Ao terminar, o lenhador contou-lhe a história de Mushkil Gushá.


- Acho que você deve estar louco - disse-lhe o homem generoso.

Mas era uma pessoa compreensiva e também enfrentava muitas dificuldades. Ao chegar em casa, depois desse incidente, percebeu que todos os seus problemas estavam resolvidos. Isto o fez pensar mais seriamente a respeito de Mushkil Gushá. Mas, aqui ele deixa nossa história.



Na manhã seguinte, a princesa voltou ao lugar onde se banhara e, quando ia entrar na água, viu, no fundo do regato, uma coisa que parecia ser seu colar. Porém, no momento em que ia pegá-lo, espirrou, jogou a cabeça para trás, e viu que o que tomara por seu colar era apenas o reflexo dele na água. O colar estava pendurado no galho de uma árvore, no mesmo lugar onde o tinha deixado há muito tempo. Emocionada, apanhou-o e foi correndo contar ao rei o acontecido. Este ordenou que o lenhador fosse posto em liberdade e que lhe pedissem desculpas em público. Tiraram a menina do orfanato e todos viveram felizes para sempre.


Estes são alguns dos episódios da história de Mushkil Gushá. E uma história muito longa, que nunca termina. Tem muitas formas. Algumas nem sequer se intitulam A história de Mushkil Gushá. Por isso as pessoas não as reconhecem como tal.


Mas é por causa de Mushkil Gushá que esta história, em qualquer de suas formas, é lembrada por alguém, em algum lugar do mundo, dia e noite, onde quer que exista gente. Tal como sempre tem sido contada, assim continua-rá a ser contada eternamente.


Você quer repetir a história de Mushkil Gushá nas noites de quinta-feira e ajudar, assim, o trabalho de Mushkil Gushá?


O Sufismo no Ocidente

quinta-feira, 12 de novembro de 2009

Como o mal gera o mal

Um eremita caminhava por um lugar deserto quando chegou a uma gruta enorme cuja entrada não era facilmente visível. Decidiu descansar dentro dela, e entrou. Logo notou o brilhante reflexo da luz sobre um monte de ouro.
Assim que tomou consciência do que tinha visto, o eremita começou a correr, fugindo o mais depressa que pôde.
Havia três ladrões que passavam muito tempo naquele ponto do deserto com a intenção de roubar viajantes. Pouco depois, o homem piedoso passou por eles. Os ladrões se surpreenderam, alarmaram-se até, vendo o homem correndo sem que ninguém o perseguisse. Saíram do seu esconderijo e o detiveram, perguntando-lhe o que estava acontecendo.
"Estou fugindo, irmãos, a morte está me perseguindo."
Os bandidos não conseguiram ver ninguém perseguindo o devoto.
"Mostra-nos quem está atrás de ti", disseram.
"Eu o farei", falou o eremita, com medo.
Levou-os em direção à gruta, rogando-lhes que não se aproximassem dela. Os ladrões ficaram curiosos com a advertência e insistiram em ver o motivo de tanto alarme.
"Aqui está a morte que me perseguia."
Os malfeitores, é claro, ficaram encantados. Evidentemente consideraram o eremita um louco e o deixaram ir, enquanto se felicitavam por sua boa sorte.
Em seguida começaram a discutir sobre o que deveriam fazer com o tesouro, pois tinham receio de deixá-lo novamente só. Decidiram, por fim, que um deles apanharia um pouco do ouro e iria à cidade, onde o trocaria por comida e outras coisas necessárias. Depois procederiam à divisão.
Um dos ladrões se apresentou voluntariamente para realizar a missão. Pensou consigo mesmo: 'Quando chegar à cidade poderia comer tudo o que quiser. Depois envenenarei o resto da comida. Assim os outros dois morrem e o tesouro será só meu.'
Na sua ausência, porém, os outros dois também tinham estado pensando, e decidiram que, quando o companheiro chegasse, o matariam. Depois comeriam sua comida e dividiriam o tesouro em duas partes, em vez de três.
No momento em que o espertalhão chegou à gruta com as provisões, os outros dois caíram sobre ele a punhaladas e o mataram... A seguir, comeram toda a comida e, por causa do veneno que o pilantra havia posto nela, morreram.
Dessa maneira, o ouro realmente tinha significado a morte, como o eremita dissera, para aqueles que se tinham deixado influenciar por ele, e o tesouro permaneceu onde estava, na gruta, por muito tempo.

Cuentos de Oriente para niños de Occidente 

quinta-feira, 5 de novembro de 2009

A ilha deserta

Certa vez um homem rico, de natureza boa e generosa queria que o seu escravo fosse feliz. Para isso lhe deu a liberdade e um navio carregado de mercadorias.
“Agora você está livre”, disse o homem. “Vá e venda esses produtos em diversos países e tudo o que conseguir por eles será seu.”
O escravo liberto embarcou no navio e viajou através do imenso oceano.
Não havia viajado muito tempo quando caiu uma tempestade. O barco foi arremessado violentamente contra os rochedos e se fez em pedaços; tudo o que havia a bordo se perdeu. Somente o ex-escravo conseguiu se salvar, nadando até alcançar a praia de uma ilha próxima.
Triste, abatido e só, nu e sem nada, o ex-escravo caminhou até chegar a uma cidade grande e linda. Onde as pessoas se aproximaram para recebê-lo, gritando:
“Bem vindo! Bem vindo! Vida longa ao rei!”
Trouxeram uma rica carruagem, onde o colocaram e escoltaram-no até um magnífico palácio. Lá muitos servos se reuniram ao seu redor, vestiram-no com roupas reais e todos se dirigiam a ele como seu soberano, em total obediência à sua vontade.
O ex-escravo, naturalmente, ficou feliz e, ao mesmo tempo, confuso. Ele desejava saber se estava sonhando ou se tudo o que via, ouvia ou experimentava não passava de uma fantasia passageira.
Convenceu-se, finalmente, de que o que estava acontecendo era real. E perguntou a algumas pessoas próximas a ele, como havia chegado àquela situação.
“Afinal, sou um homem sobre de quem vocês nada conhecem, um pobre e despido vagabundo que nunca viram antes. Como podem transformar-me em seu governante? Isto me causa muito mais espanto do que possa dizê-lo.”
“Senhor, esta ilha é habitada por espíritos. Há muito tempo eles rezaram para que lhes fosse enviado um filho do homem que os governá-los, e suas preces foram ouvidas. Todos os anos é enviado um filho do homem. Eles o recebem com grande dignidade e o colocam no trono. Porém seu ‘status’ e seu poder acabam quando se completa o ano. Então lhe tiram as vestes reais e o põe a bordo de um barco que o leva para uma grande ilha deserta. Lá, a não ser que antes tenha sido sábio e tenha se preparado para esse dia, não encontra amigos, não encontra nada: vê-se obrigado a passar uma vida aborrecida, solitária e miserável. Elege-se então um novo rei, e assim acontece ano após ano. Os reis que o antecederam foram descuidados e não pensaram. Desfrutaram completamente do seu poder, esquecendo-se do dia em que tudo se acabaria."
Essas pessoas aconselharam ao ex-escravo a ser sábio e permitir que suas palavras permanecessem dentro do seu coração.
O novo rei ouviu tudo atentamente, e lamentou ter perdido o pouco tempo que havia passado desde que chegara à ilha. Em seguida pediu ao homem de conhecimento que havia falado:
“Aconselhe-me, ó Espírito da Sabedoria, como devo preparar-me para os dias que chegarão.”
“Nu você chegou até nós e nu será enviado à ilha deserta da qual lhe falei. Agora você é rei e pode fazer o que quiser. Por isso mande trabalhadores à ilha e permita-lhes que construam casas, preparem a terra e tornem belas as redondezas. Os terrenos áridos devem ser transformados em campos frutíferos. As pessoas deverão ir viver lá e você estabelecerá um reino para si mesmo. Seus próprios súditos estarão esperando quando você chegar para dar-lhe as boas-vindas. O ano é curto, o trabalho é longo: seja diligente e enérgico.”
O rei seguiu o conselho. Mandou trabalhadores e materiais para a ilha deserta, e antes de findar a vigência de seu poder a ilha se transformou num lugar fértil, aprazível e atraente.
Os governantes que o tinham precedido haviam antecipado o fim de seu tempo com medo, ou afastavam este pensamento se divertindo. Ele, porém o aguardava com alegria, uma vez que então poderia começar sobre a base da paz permanente e felicidade.
O dia chegou. O escravo liberto que tinha sido feito rei foi despojado de sua autoridade. Ao perder seus trajes reais, perdeu também seus poderes. Nu, foi colocado num barco, e as velas inflaram em direção à ilha. Porém quando se aproximou da praia as pessoas que tinham sido enviadas antes para lá vieram para recebê-lo com música, canções e muita alegria. Fizeram-no seu governante, e ele viveu em paz.

O Cavalo Mágico.

O HOMEM CUJA HISTÓRIA ERA INESPLICÁVEL

Era uma vez um homem chamado Mojud. Ele vivia numa cidade onde havia conseguido um emprego como pequeno funcionário público, e tudo levava...