quinta-feira, 10 de dezembro de 2009

A História de Yunus Emré.


Yunus Emré, em tempos muito antigos, inventou cantos mais duráveis que a memória de sua própria vida. Foi também um incansável buscador da verdade. Aos vinte e oito anos, ou talvez mais jovens ainda, veio-lhe ao coração uma avidez pelo conhecimento que o levou pelos caminhos do mundo.

Ele partiu na esperança de que esta sede de saber o conduzisse a um mestre que o iluminasse. Esse mestre foi-lhe dado encontrar depois de dez anos de errância miserável, no grande vento de uma colina, em plena estepe da Anatólia. Chamava-se Taptuk e era cego.

Taptuk também havia viajado muito, mas por caminhos diferentes dos de Yunus. Adolescente ainda, raspou sua cabeça e sobrancelhas e vestindo um gorro de feltro vermelho foi combater invasores mongóis. Atravessou tantas derrotas quanto efêmeras vitórias. Cavalgou com o sabre entre os dentes, perseguindo homens tão loucos quanto ele.


Odiou, pilhou, matou, cem vezes perdeu e encontrou sua alma no furor dos combates, até que finalmente o silêncio se abateu sobre sua cabeça. numa noite de derrota, ele foi deixado como morto num campo de batalho, à beira de um riacho. Lá, uma mulher, a primeira de sua existência com exceção de algumas prostitutas de tavernas, finalmente debruçou-se sobre ele. Ela o recolheu, cuidou dele até curá-lo. Só não pode devolver-lhe a visão que lhe tinha sido tomada por um sabre inimigo. Ela então lhe ofereceu sua vida, sua mão para conduzí-lo. Desse dia em diante, guiado por sua esposa, Taptuk não sonhava outra coisa a não ser encontrar nele mesmo um caminho até a fonte silenciosa de onde se eleva a luz que torna todas as coisas simples. 

Uma noite, nesse deserto seco onde ninguém se aventura, com exceção de alguns pastores perdidos, ele alcançou a fonte. Lá, construiu sua casa. Outros buscadores juntaram-se a ele, de tempos em tempos, levados por não se sabe que ventos da alma. Eles reconheceram neste homem imponente e de poucas palavras o mestre que eles esperavam. Construíram suas cabanas perto da sua e em volta construíram uma paliçada.

 
Quando Yunus Emré chegou a este lugar, o monastério de Taptuk, o cego, não era mais do que isso: algumas choupanas baixas rodeadas por um muro de pedras secas na estepe infinita. Taptuk, assim que apalpou o rosto e os ombros deste andarilho faminto de saber, prometeu-lhe a verdade.


“Ela chegará aos poucos”, disse-lhe. “Por enquanto seu trabalho será varrer sete vezes por dia o pátio do monastério.”

Yunus obedeceu de coração. No instante mesmo em que se viu diante desse ancião de cabeça raspada, uma confiança inquebrantável apoderou-se dele. Sete vezes por dia varria o pátio com entusiasmo, saudando alegremente o mestre e seus discípulos quando eles se reuniam na casa da esposa onde Taptuk ensinava todas as manhãs. Mas ninguém respondia as suas saudações...
‘Está bem que os discípulos me ignorem’, dizia-se, ‘mas aquele que tão bem me acolheu em sua casa, por que não me dirige a palavra’? Assim se passou um ano, depois dois e três anos, sem que ninguém falasse com ele. Então, seu coração tornou-se pesado... ‘Sem duvida este silêncio significa alguma coisa’, pensou, ‘seguramente meu mestre quer ensinar algo para minha alma, pois é à alma que se dirige a palavra sem voz’.

Refletiu sobre sua solidão miserável, enxotando sete vezes por dia o pó que o vento trazia sem cessar para o pátio do monastério. Enfim, numa manhã de primavera, ao sair de sua cabana, a vassoura nos ombros, uma luz lhe veio.


‘Descobri! Taptuk quer ensinar-me a paciência’, ele se disse. Seu coração encheu-se de júbilo e ele voltou a varrer o pátio com um ardor renovado.

Cinco anos se passaram. Dois outros escoaram ainda, depois três, depois cinco novos anos, sem que sua sorte mudasse. Então Yunus desesperou-se... ‘Que fiz eu para merecer tão longa indiferença? Talvez meu mestre tenha me esquecido. Ou talvez não seja eu para ele senão um idiota recolhido por piedade, bom apenas para varrer o pátio’.


Esforçou-se, no entanto, para refletir desapaixonadamente. Numa noite de tempestade, veio-lhe ao espírito que Taptuk talvez quisesse ensinar-lhe a humildade. Em meio à escuridão atormentada em que se encontrava, ele sorriu... ‘É isto, ele quer me ensinar a humildade’.

Na manhã seguinte, quando iniciou o trabalho, seus gestos estavam mais comedidos e, porque seu coração estava em paz, ele se pôs, enquanto varria o pátio, a cantarolar. Pouca coisa. Palavras que lhe vinham, cantos que lhe subiam aos lábios e que ele deixava ir ao vento pela única satisfação de ouvir voz humana. Entretanto, sua confiança em Taptuk pouco a pouco o deixou. ‘Este homem, decididamente, o enganara. Ele não tivera jamais a intenção de ensinar-lhe o que havia prometido’. ‘Perco minha vida a esperar’.

Cinco anos ainda, varreu o pátio cantando, sem que ninguém o escutasse. Uma noite, cansado dessa miserável existência e convencido de que ninguém se aperceberia de sua ausência, decidiu deixar aquele lugar onde, depois de quinze anos de humilde paciência, não havia encontrado senão amargura e melancolia. 

Ele se foi pela noite, caminhando sempre em frente. Andou até o amanhecer, embriagado de liberdade sem esperança. Sentiu fome e sede, mas não havia nenhuma fonte onde saciar-se, nenhum abrigo onde pudesse refazer as forças neste infinito deserto de ervas amarelecidas, pedras e vento.


‘Vou morrer’, se disse. ‘Mas, o que importa? Mais vale morrer caminhando do que varrendo o pátio de um louco’.

Andou, pois três dias inteiros. Na noite do terceiro dia, no momento que ia deitar-se sobre um rochedo para oferecer seu corpo extenuado aos abutres, percebeu ao longe um acampamento. Surpreendeu-se. Nenhum viajante viria a essas terras. Quem poderiam ser estas pessoas? Aproximou-se. Viu homens sentados na entrada de uma grande tenda. Festejavam rindo e falando alto. Quando o viram, fizeram-lhe sinal e, gritando alegremente, convidaram-no a compartilhar sua refeição. Frutas deliciosas, assados apetitosos, bebidas de todas as cores em frascos de vidro estendiam-se em profusão sobre um tapete de lã. Yunus acercou-se deles, bebeu, comeu, e finalmente ousou perguntar a essas pessoas por qual milagre, neste deserto hostil, eles se achavam assim providos de alimentos tão raros, como jamais ele havia experimentado.

Uma voz conduziu-nos aqui, disseram-lhe. Com certeza é o melhor lugar do mundo. Todos os dias o vento traz de longe os cantos de um dervixe desconhecido. Basta escutá-los e cantá-los que logo aparecem diante de nós todas essas iguarias suculentas que você vê. Seríamos loucos se fossemos viver noutro lugar.


Yunus extasiou-se, confessou que jamais conhecera magia igual e atreveu-se a perguntar a seus companheiros se eles poderiam ensinar-lhe tais cantos para que ele não morresse de fome pelo caminho.


Com prazer”, responderam os homens. E se puseram a cantar. Então, Yunus com os olhos arregalados e a boca aberta, ouviu os cantos que ele mesmo inventara durante os últimos cinco anos, varrendo o pátio do monastério. Reconheceu as mesmas palavras que pronunciara com o único desejo de enganar a solidão. Músicas nascidas em seu coração, na esperança de espantar a melancolia. Eram a sua obra. No mesmo instante, compreendeu para qual trabalho ele estava neste mundo, experimentou a pura verdade de sua alma e sofreu a pior vergonha pensando em Taptuk que o havia instruído, sem que ele percebesse, como a um filho infinitamente amado. Então abraçou e beijou os homens que o haviam acolhido e voltou ao monastério correndo e chorando.

‘Taptuk me perdoará por eu ter duvidado dele?’ Se dizia, bebendo o vento. ‘Algum dia ele me perdoará’
 
Já era noite quando chegou à porta carcomida que fechava a paliçada. Bateu chamando e pedindo piedade. O rosto da esposa de Taptuk apareceu em cima do muro.


“Eis que está de volta, Yunus”, disse ela docemente. “Pobre criança! Não sei se Taptuk o aceitará de novo entre nós. Sua partida o desesperou” – ‘Que desgraça, disse-me ele, meu filho mais querido deixou-me. Que vale a minha vida daqui para frente?’Vou abrir. Você vai dormir na poeira do pátio. Amanhã, quando seu mestre fizer o passeio matinal, vai bater o pé no seu corpo. Se ele disser: ‘quem é este homem’? – então você deverá partir para sempre. Mas se disser: ‘É você meu bom Yunus’? - Então saberá que pode outra vez viver em sua presença. Entre meu filho”.

Yunus deitou-se na poeira do chão. Ao amanhecer viu aproximar-se Taptuk, o cego, com sua esposa. Fechou os olhos, sentiu um pé contra suas costas e ouviu:  É você meu bom Yunus”? – Ele se levantou inebriado de luz e de felicidade, correu para sua vassoura e começou novamente a varrer o pátio.

Assim ele fez até sua morte sem falhar um único dia. Quando se tornou semelhante ao pó, mil vezes levado pelo vento, seus cantos se elevaram, invadiram os lugares onde viviam os homens e os nutriam com uma bondade tão perseverante que ainda hoje, nove cidades na Anatólia reivindicam o privilégio de ter em seu território o verdadeiro túmulo de Yunus Enré, o homem que Taptuk, o cego, iluminou.

quinta-feira, 3 de dezembro de 2009

O Cavalo Mágico


Era uma vez, não faz muito tempo, um reino cujos habitantes eram extremamente prósperos. Tinham feito toda espécie de descobertas a respeito do crescimento das plantas, da colheita e da conservação de frutos, da manufatura de objetos para vender a outros países, e de muitas outras artes práticas.
Seu soberano era possuidor de uma sabedoria incomum. Incentivava novas descobertas e toda espécie de atividades, pois sabia das vantagens que traziam para seus súditos.
O rei tinha um filho chamado Hoshyar, perito no uso de estranhos aparelhos, e outro chamado Tambal, sonhador, que parecia estar interessado somente naquelas coisas que o povo achava de pouco valor.
De tempos em tempos, o rei Mumkin, assim se chamava o soberano, mandava arautos divulgar que:
"Todos aqueles que tiverem invenções notáveis e artefatos úteis, levem-nos ao palácio, onde serão examinados, de modo que seus inventores sejam devidamente recompensados".
Acontece que naquele país havia dois homens, um ferreiro e um marceneiro, que se rivalizavam em muitas coisas, gostando os dois de construir estranhos artefatos.
Um dia, ao ouvir o anúncio aceitaram competir por um prêmio, para que seu soberano decidisse, de uma vez por todas, a qual deles correspondia maior mérito. Esperavam que essa decisão fosse reconhecida publicamente.
Desse modo, o ferreiro, empregando uma multidão de talentosos especialistas, trabalhou dia e noite na construção de uma poderosa máquina. Para que seus inventos e métodos permanecessem secretos, ele construiu altos muros ao redor de sua oficina.
Ao mesmo tempo, o marceneiro pegava suas ferramentas simples e se dirigira ao bosque, onde, após uma longa e solitária meditação, preparou sua obra prima.
As notícias sobre a competição entre os dois se espalharam. As pessoas achavam que o ferreiro venceria facilmente, pois seus engenhosos trabalhos já eram conhecidos, e, embora de modo geral os produtos do marceneiro fossem admirados seu uso era considerado ocasional e pouco impressionante.
Quando ambos estavam prontos, o rei os recebeu na corte.
O ferreiro tinha fabricado um enorme peixe metálico que, segundo dizia, podia nadar tanto na superfície quanto sob a água. Podia transportar grande quantidade de carga sobre a terra firme, podia escavar túneis e até voar lentamente pelos ares.
A princípio, a corte duvidou que tal maravilha pudesse ter sido construída por um homem, mas quando o ferreiro e seus assistentes fizeram uma demonstração o rei ficou maravilhado, e proclamou o ferreiro um dos homens mais honoráveis do reino, em uma categoria especial, e honrou-o com o título de Benfeitor da Comunidade.
O príncipe Hoshyar foi encarregado da fabricação dos maravilhosos peixes, e os benefícios do novo invento ficaram ao alcance de toda humanidade.
Todos louvavam o ferreiro, Hoshyar e o benigno e sagaz monarca, a quem tanto amavam.
No meio daquele entusiasmo, todos se esqueceram do modesto marceneiro, até que um dia alguém perguntou:
— Que houve com a competição? Onde está o trabalho do marceneiro? Sabemos que é um homem engenhoso. Talvez tenha fabricado algo útil.
— Como pode haver algo tão útil como os peixes maravilhosos? — perguntou Hoshyar, e muitos, entre os cortesãos e as pessoas do povo, concordaram com ele.
Um dia o rei estava muito aborrecido. Acostumara-se com a novidade dos peixes e com as notícias das maravilhas que executavam.
— Chamem o marceneiro – disse, então. — Gostaria de ver o que ele fez.
O humilde marceneiro, carregando um volume envolto num pano ordinário, entrou na sala do trono. Todos da corte se voltaram, curiosos, para ver o que ele trazia.
Ele desembrulhou o pacote, revelando... um cavalo de madeira. Era finamente talhado, com um complicado desenho esculpido em seu corpo e decorado com pinturas coloridas. Mas era apenas...
— Um simples brinquedo! – explodiu o rei.
— Pai – disse o príncipe Tambal, — perguntemos ao homem para que serve...
— Muito bem – disse o rei. – Para que serve?
— Majestade, é um cavalo mágico – balbuciou o marceneiro. – Não impressiona à vista, mas possui algo semelhante a sentidos internos. Ao contrário do peixe, que deve ser guiado, este cavalo pode interpretar os desejos de seu ginete e levá-lo aonde for necessário que vá.
— Semelhante bobagem só serve para Tambal – murmurou o primeiro-ministro, que estava junto ao rei. — Não pode ter nenhuma utilidade real, se comparado com o maravilhoso peixe.
Triste, o marceneiro preparava-se para partir, quando Tambal disse:
— Pai, deixe-me ficar com o cavalo de madeira.
— Muito bem — disse o rei. — Dêem-lhe o cavalo. Levem o marceneiro e amarrem-no a uma árvore para que compreenda como nosso tempo é valioso. Deixem que contemple a prosperidade que o peixe maravilhoso nos trouxe. Depois de algum tempo talvez o libertemos para que, tendo refletido, pratique o que aprendeu a respeito da verdadeira engenhosidade.
O marceneiro foi conduzido ao seu destino, e o príncipe Tambal retirou-se, levando consigo o cavalo mágico.
Em seus aposentos, descobriu que o cavalo tinha vários botões, habilmente disfarçados, entre os desenhos esculpidos. Quando eram girados de determinada forma, o cavalo juntamente com quem o estivesse montando, elevava-se no ar e voava veloz para qualquer lugar imaginado por seu cavaleiro.
Dia após dia Tambal voou por lugares que nunca tinha visitado antes, e assim chegou a conhecer uma grande quantidade de coisas. Aonde quer que fosse, Tambal levava consigo o cavalo.
Um dia encontrou-se com Hoshyar, que lhe disse:
— Carregar um cavalo de madeira é uma ocupação própria para alguém como você. Quanto a mim, trabalho para o bem de todos, obedecendo ao desejo do meu coração.
Tambal pensou:
"Gostaria de saber qual é o bem de todos e qual seria o desejo do meu coração".
Voltando a seus aposentos, sentou-se sobre o cavalo e pensou:
"Gostaria de encontrar o desejo do meu coração".
Então girou alguns botões no pescoço do cavalo.
Mais veloz do que a luz, o cavalo elevou-se nos ares e levou o príncipe para um reino distante, governado por um rei mago. Normalmente teria levado mil dias viajando para chegar àquele reino.
O rei, cujo nome era Kahana, tinha uma linda filha, chamada Pérola Preciosa, Duri-Karima. Para protegê-la, o rei encerrou-a num palácio que girava nos céus, muito mais alto do que qualquer mortal pudesse alcançar. Tambal viu o reluzente palácio no céu e foi até lá. A princesa e o jovem cavaleiro se conheceram e apaixonaram-se.
— Meu pai jamais permitirá que nos casemos – disse ela, — pois ordenou que eu fosse esposa do filho de outro rei mago que vive a leste daqui, depois do deserto gelado. Prometeu que, quando eu tiver idade suficiente, promoverá a união de ambos os reinos através do meu casamento. Sua vontade jamais foi contrariada com êxito por pessoa alguma.
— Irei vê-lo e tentarei argumentar com ele – respondeu Tambal, montando novamente em seu cavalo mágico.
Acontece que, quando desceu na terra mágica, havia tantas coisas novas e excitantes para ver que ele não foi logo ao palácio. Quando finalmente chegou às suas portas, o tambor da entrada já tocava anunciando a ausência do rei.
Tambal perguntou a um homem que passava quando o rei regressaria.
— Ele foi visitar a filha no Palácio Giratório e costuma passar várias horas com ela – respondeu o homem.
Tambal foi para um lugar afastado, desejou que seu cavalo o levasse aos aposentos do rei e pensando consigo mesmo:
"Eu me aproximarei dele em sua própria casa, pois poderá zangar-se se for procurá-lo no Palácio Giratório sem sua permissão".
Quando se encontrava no quarto do rei, Tambal escondeu-se atrás de umas cortinas e adormeceu.
Enquanto isso, incapaz de guardar seu segredo, a princesa Pérola Preciosa confessou ao pai que, fora visitada por um homem montado num cavalo voador e que, ele queria casar-se com ela. Kahana ficou furioso. Pôs sentinelas à volta do Palácio Giratório e voltou aos seus aposentos para refletir sobre o acontecido. Mal entrou em seu quarto um dos mágicos servos mudos que o protegiam apontou para o cavalo de madeira que estava em um canto.
— Aha! – exclamou o mago.— Está em minhas mãos. Vamos observar seu cavalo para saber o que é.
Enquanto ele e os servos examinavam o cavalo, o príncipe conseguiu fugir e esconder-se em outro lugar do palácio.
Depois de girar os botões, bater de leve no cavalo e tentar entender seu funcionamento, o rei parecia confuso.
— Levem isso daqui. Já não tem nenhuma virtude, embora possa ter tido um dia – disse. — É uma bobagem própria para crianças, e só.
O cavalo foi guardado num armário de coisas velhas.
Então o rei Kahana achou que deveria começar imediatamente os preparativos para o casamento de sua filha, supondo que o fugitivo teria outros poderes ou invenções para conquistá-la. Levou a princesa para seu próprio palácio e enviou uma mensagem ao outro rei mago, pedindo-lhe que o príncipe que ia desposá-la viesse pedir a sua mão.
Enquanto isso tendo escapado do palácio à noite, quando alguns guardas dormiam, o príncipe Tambal decidiu que deveria tentar retornar ao seu país. A busca do desejo do seu coração parecia quase impossível agora.
"Mesmo que leve o resto de minha vida, voltarei com tropas para tomar este reino à força", disse consigo mesmo. "Só poderei fazer isso se convencer meu pai de que preciso da sua ajuda para conseguir o desejo do meu coração".
Dizendo isto, partiu. Jamais houve homem tão mal equipado quanto ele para semelhante viagem. Era estrangeiro, viajava a pé e sem provisões, enfrentando dias de calor insuportável e noites geladas, sofrendo debaixo de terríveis tempestades de areia. Não demorou muito para que se visse irremediavelmente perdido no deserto.
Naquela situação, em seu delírio, Tambal começou a culpar a si mesmo, a seu pai, ao rei mago, ao marceneiro, até a princesa e ao próprio cavalo mágico. Algumas vezes pensava que via água a sua frente ou cidades maravilhosas. Em certos momentos se sentia eufórico, em outros muito triste. Houve ocasiões em que imaginou que tivesse companheiros em suas dificuldades, mas ao despertar estava totalmente só. Parecia-lhe que a viagem já durava uma eternidade.
Depois de ter desanimado por várias vezes e começado tudo de novo, viu alguma coisa a sua frente que parecia uma miragem: um jardim cheio de frutas deliciosas, cintilantes, que pareciam convidá-lo a apanhá-las. A princípio Tambal não acreditou. Mas continuou a caminhar e viu que estava realmente atravessando aquele jardim. Apanhou algumas frutas e provou-as com cuidado. Eram deliciosas. Fizeram-no perder o medo, e também a fome e a sede.Quando se viu satisfeito, deitou-se à sombra de uma árvore enorme e hospitaleira, e dormiu.
Ao acordar, sentia-se muito bem, embora alguma coisa parecesse estar errada. Correu até um lago próximo, olhou-se no espelho das águas. Teve diante de si uma horrível visão: a imagem refletida tinha uma longa barba, chifres retorcidos e orelhas enormes. Olhou então para suas mãos e estavam cobertas de pêlos.
Seria um pesadelo? Procurou acordar dando-se beliscões e bofetadas, sem resultado. Descontrolado, fora de si de tanto medo e horror, tomado por acessos de gritos e cansado de tanto chorar, atirou-se no chão.
"Quer viva, quer morra", pensou, "estes frutos malditos me arruinaram definitivamente. Mesmo que eu tivesse o maior exército de todos os tempos, de nada adiantaria. Ninguém se casaria comigo agora, muito menos a princesa Pérola Preciosa. Não posso imaginar um animal sequer que não ficasse apavorado ao ver-me, quanto mais aquela que é o desejo do meu coração".
Nesse instante Tambal perdeu os sentidos. Quando voltou a si já estava escuro. Uma luz se aproximava através do bosque de árvores silenciosas. Medo e esperança debateram-se dentro dele. À medida que a luz se aproximava pode ver o que era. Provinha de uma lanterna em forma de uma estrela brilhante. Era carregada por um homem de barba, que caminhava, se orientando pela luz que projetava ao seu redor. O homem avistou Tambal e disse:
— Meu filho, você foi vítima das influências deste lugar. Se eu não passasse por aqui seria um animal a mais neste jardim encantado, onde há muitos como você. Mas eu posso ajudá-lo.
Tambal se perguntou, se aquele homem não seria um espírito maligno, disfarçado talvez, o dono daquelas árvores malditas. Mas, quando recuperou totalmente a consciência, percebeu que não tinha nada a perder.
— Ajude-me, pai – disse.
— Se realmente quer o desejo do seu coração – falou o homem, — você deve fixar o seu desejo firmemente em sua mente e esquecer-se do fruto. Depois você deve pegar não os frutos frescos e deliciosos, mas alguns secos que estão debaixo destas árvores. Coma-os e siga o seu destino.
Disse isto e afastou-se.
Enquanto a luz do sábio ia desaparecendo na escuridão, Tambal viu que a Lua surgia e, à luz de seus raios, pôde ver que realmente havia muitas frutas secas sob as árvores. Juntou algumas e comeu-as tão rápido quanto pôde. Pouco a pouco, enquanto observava, os pêlos desapareceram de suas mãos e braços. Os chifres, primeiro, diminuíram, e, depois, desapareceram. Sua barba caiu. Voltara a ser o mesmo.
Naquele momento começavam a surgir as primeiras luzes do dia, e Tambal ouviu o tilintar de campainhas de camelos. Um cortejo vinha atravessando o bosque encantado. Era, sem dúvida, a caravana de algum personagem importante em uma longa viagem.
Enquanto Tambal estava lá, absorto e imóvel, dois cavaleiros se separaram da resplandecente escolta e galoparam até ele.
— Em nome do príncipe, nosso senhor, queremos algumas de suas frutas. Sua alteza celestial está com sede e manifestou o desejo de comer alguns destes estranhos damascos – disse um deles.
Tambal, porém, permanecia imóvel, ainda abalado por suas recentes experiências. O próprio príncipe desceu então de seu palanquim e lhe disse:
— Eu sou Jadugarzada, filho do rei mago do leste. Aqui está uma bolsa com moedas de ouro, idiota. Comerei algumas frutas, já que estou com vontade. Tenho pressa e não posso perder tempo, pois vou pedir a mão de minha noiva, Pérola Preciosa, filha de Kahana, rei mago do oeste.
Ao ouvir estas palavras o coração de Tambal se contraiu. Compreendendo, porém, que aquele deveria ser o destino que o sábio o mandara seguir, ofereceu ao príncipe todas as frutas que quisesse comer.
Uma vez satisfeito, o príncipe pôs-se a dormir. Logo lhe começaram a crescer enormes orelhas, chifres e pêlos. Os soldados sacudiram-no, mas o príncipe agiu de maneira estranha. Achava que ele era o normal e os outros os disformes.
Os conselheiros que acompanhavam o cortejo acalmaram o príncipe e travaram uma rápida discussão. Tambal afirmava que nada teria acontecido se o príncipe não tivesse adormecido.
Finalmente, decidiram por Tambal no palanquim para que desempenhasse o papel do príncipe. Jadugarzada, disfarçado de criada, com um véu escondendo-lhe o rosto e os chifres, foi amarrado a um cavalo.
— Talvez recobre o juízo mais tarde – disseram os conselheiros – e continue sendo o nosso príncipe. Tambal se casará com a moça, e depois, logo que seja possível, levaremos todos para o nosso país, a fim de que o rei solucione o problema.
Tambal, à espera do momento oportuno e seguindo o seu destino, aceitou participar da farsa. Quando o cortejo chegou à capital do oeste, o rei foi pessoalmente recebê-los. Tambal foi apresentado à princesa como seu noivo. Surpresa ela quase desmaiou, mas Tambal conseguiu sussurrar-lhe ao ouvido o que acontecera. E foram devidamente casados, em meio a grandes festejos.
Enquanto isso, o infeliz príncipe recobrava um pouco o juízo, mas não a aparência humana, e a escolta ainda o mantinha encoberto.
Logo que os festejos chegaram ao fim, o chefe do cortejo do príncipe de chifres, que tinha estado vigiando Tambal e a princesa bem de perto, apresentou-se à corte e disse:
— Ó justo e glorioso monarca, fonte de sabedoria. De acordo com as declarações de nossos astrólogos e adivinhos, chegou o momento de levar o casal de noivos para a nossa terra, a fim de que se restabeleçam em seu novo lar, nas circunstâncias mais felizes e sob influências propícias.
A princesa, alarmada, olhou para Tambal, pois sabia que Jadugarzada a reclamaria para si logo que se pusessem a caminho, dando fim a Tambal. Mas Tambal murmurou-lhe:
— Não tema. Devemos representar o melhor que pudermos, seguindo o nosso destino. Concorde em partir, mas imponha a condição de que você só viajará levando o cavalo de madeira.
A princípio, o rei mago ficou aborrecido com aquele capricho da filha. Imaginou que ela queria o cavalo porque ele estava ligado ao primeiro pretendente. Mas, o chefe dos ministros do príncipe disse:
— Majestade, não acho que isto seja mais do que um capricho por um brinquedo, que seria normal em qualquer criança. Espero que lhe dê seu cavalo para que possamos nos por a caminho.
O rei mago concordou e o cortejo pôs-se em marcha. Logo que a escolta se retirou, antes do descanso da primeira noite, o horrendo Jadugarzada tirou o véu e gritou para Tambal:
— Miserável, causador da minha desgraça! Vou amarrar seus pés e suas mãos e o levarei para minha terra como prisioneiro. Quando chegarmos lá, se não me disser como desmanchar este feitiço mandarei esfolá-lo vivo, pouco a pouco. Agora me entregue a princesa Pérola Preciosa.
Tambal protegendo a princesa e, diante do assombrado cortejo, elevando-se pelos ares montado em seu cavalo de madeira, levou consigo Pérola Preciosa.
Em poucos minutos o casal desceu no palácio do rei Mumkin. Contaram-lhe tudo o que lhes havia acontecido e o rei ficou extremamente feliz por vê-los sãos e salvos.
Imediatamente, ordenou que o infeliz marceneiro fosse libertado, recompensado e aclamado por todas as pessoas do reino.
Quando o rei foi reunir-se a seus antepassados, a princesa Pérola Preciosa e o príncipe Tambal sucederam-lhe no trono O príncipe Hoshyar ficou satisfeito também, pois continuava fascinado pelo peixe maravilhoso.
— Estou feliz por vê-los felizes – costumava dizer. – Mas para mim nada é mais compensador do que, dedicar-me ao peixe maravilhoso.
 ***
Esta história é a origem de uma estranha máxima que corre entre as pessoas daquelas terras, embora a sua origem tenha sido esquecida. A máxima diz:
"Quem deseja peixes pode conseguir muito através dos peixes, e quem não conhece o desejo de seu coração deve ouvir primeiro a história do cavalo de madeira".

História publicada em: Histórias da Tradiçao Sufi


O HOMEM CUJA HISTÓRIA ERA INESPLICÁVEL

Era uma vez um homem chamado Mojud. Ele vivia numa cidade onde havia conseguido um emprego como pequeno funcionário público, e tudo levava...