quinta-feira, 23 de dezembro de 2010

FÁTIMA A FIANDEIRA

Numa cidade do mais longínquo Ocidente vivia uma jovem chamada Fátima, filha de um próspero fiandeiro. Um dia o pai lhe disse:
— Filha, nós faremos uma viagem, pois tenho negócios a resolver nas ilhas do Mediterrâneo. Talvez você encontre por lá um jovem atraente, de boa posição, com quem possa então se casar.
Iniciaram assim sua viagem, indo de ilha em ilha; o pai cuidando de seus negócios, Fátima sonhando com o homem que poderia vir a ser seu marido. Mas um dia, quando se dirigiam a Creta, armou-se uma tempestade e o barco naufragou. Semi-inconsciente, Fátima foi arrastada pelas ondas até uma praia perto de Alexandria. Seu pai estava morto, e ela ficou inteiramente desamparada.
Podia recordar-se apenas vagamente de sua vida até aquele momento, pois a experiência do naufrágio e o fato de ter ficado exposta às inclemências do mar a tinham deixado completamente exausta e aturdida.
Enquanto vagava pela praia, uma família de tecelões a encontrou. Embora fossem pobres, levaram-na para sua humilde casa e ensinaram-lhe seu ofício. Desse modo Fátima iniciou nova vida e, em um ou dois anos, voltou a ser feliz, reconciliada com sua sorte. Porém um dia, quando estava na praia, um bando de mercadores de escravos desembarcou e levou-a, junto com outros cativos.
Apesar dela se lamentar amargamente de seu destino, eles não demonstraram nenhuma compaixão: levaram-na para Istambul e venderam-na como escrava. Pela segunda vez o mundo da jovem ruíra.
Mas quis a sorte que no mercado houvesse poucos compradores na ocasião. Um deles era um homem que procurava escravos para trabalhar em sua serraria, onde fabricava mastros para embarcações. Ao perceber o ar desolado e o abatimento de Fátima, decidiu comprá-la, pensando que poderia proporcionar-lhe uma vida um pouco melhor do que teria nas mãos de outro comprador.
Ele levou Fátima para casa com a intenção de fazer dela uma criada para sua esposa. Mas ao chegar em casa soube que tinha perdido todo o seu dinheiro quando um carregamento fora capturado por piratas. Não poderia enfrentar as despesas que lhe davam os empregados, e assim ele, Fátima e sua mulher arcaram sozinhos com a pesada tarefa de fabricar mastros.
Fátima, grata ao seu patrão por tê-la resgatado, trabalhou tanto e tão bem que ele lhe deu a liberdade, e ela passou a ser sua ajudante de confiança. Assim ela chegou a ser relativamente feliz em sua terceira profissão.
Um dia ele lhe disse:
— Fátima, quero que vá a Java, como minha representante, com um carregamento de mastros; procure vendê-los com lucro.
Ela então partiu. Mas quando o barco estava na altura da costa chinesa um tufão o fez naufragar. Mais uma vez Fátima se viu jogada como náufraga em uma praia de um país desconhecido. De novo chorou amargamente, porque sentia que nada em sua vida acontecia como esperava. Sempre que tudo parecia andar bem alguma coisa acontecia e destruía suas esperanças.
— Por que será — perguntou pela terceira vez — que sempre que tento fazer alguma coisa não da certo? Por que devo passar por tantas desgraças?
Como não obteve respostas, levantou-se da areia e afastou-se da praia.
Acontece que na China ninguém tinha ouvido falar de Fátima ou de seus problemas. Mas existia a lenda de que um dia chegaria certa mulher estrangeira capaz de fazer uma tenda para o imperador. Como naquela época não existia ninguém na China que soubesse fazer tendas, todo mundo aguardava com ansiedade o cumprimento da profecia.
Para ter certeza de que a estrangeira ao chegar não passaria despercebida, uma vez por ano os sucessivos imperadores da China costumavam mandar seus mensageiros a todas as cidades e aldeias do país pedindo que toda mulher estrangeira fosse levada à corte.
Exatamente numa dessas ocasiões, esgotada, Fátima chegou a uma cidade costeira da China. Os habitantes do lugar falaram com ela através de um intérprete e explicaram-lhe que devia ir à presença do imperador.
— Senhora— disse o imperador quando Fátima foi levada até ele — sabe fabricar uma tenda?
— Acho que sim, Majestade — respondeu.
Pediu cordas, mas não tinham. Lembrando-se dos seus tempos de fiandeira, Fátima colheu linho e fez as cordas. Depois pediu um tecido resistente, mas os chineses não o tinham do tipo que ela precisava. Então, utilizando sua experiência com os tecelões de Alexandria, fabricou um tecido forte, próprio para tendas. Percebeu que precisava de estacas para a tenda, mas não existiam no país. Lembrando-se do que lhe ensinara o fabricante de mastros em Istambul, Fátima fabricou umas estacas firmes. Quando estas estavam prontas ela puxou de novo pela memória, procurando lembrar-se de todas as tendas que tinha visto em suas viagens. E uma tenda foi construída.
Quando a maravilha foi mostrada ao imperador da China ele se prontificou a satisfazer qualquer desejo que Fátima expressasse. Ela escolheu morar na China, onde se casou com um belo príncipe, e, rodeada por seus filhos, viveu muito feliz até o fim de seus dias.
Através dessas aventuras Fátima compreendeu que o que em cada ocasião lhe tinha parecido ser uma experiência desagradável acabou sendo parte essencial de sua felicidade

Histórias da Tradiçao Sufi (Ed. DERVISH)

quinta-feira, 16 de dezembro de 2010

A LENDA DAS AREIAS

Vindo desde as suas origens em distantes montanhas, após passar por inúmeros acidentes de terrenos nas regiões campestres, um rio finalmente alcançou as areias do deserto. E do mesmo modo como vencera as outras barreiras, o rio tentou atravessar esta de agora, mas se deu conta de que suas águas mal tocavam a areia nela desapareciam.

Estava convicto, no entanto, de que fazia parte do seu destino cruzar aquele deserto, embora não visse como fazê-lo. Então uma voz misteriosa, saída do próprio deserto, sussurrou:

"O vento cruza as areias do deserto, o mesmo pode fazer o rio."

O rio objetou estar se arremessando contra as areias, sendo assim absorvido, enquanto que o vento podia voar, conseguindo dessa maneira atravessar o deserto. 

"Arrojando-se com violência como vem fazendo não conseguirá cruzá-lo. Assim desaparecerá ou se transformará num pântano. Deve permitir que o vento o conduza a seu destino."

"Mas como isso pode acontecer?"

"Consentindo em ser absorvido pelo vento."

Tal sugestão não era aceitável para o rio. Afinal de contas, ele nunca fora absorvido até então. Não desejava perder a sua individualidade. Uma vez a tendo perdido, como se poderá saber se a recuperaria mais tarde?

"O vento desempenha essa função. Eleva a água, a conduz sobre o deserto e depois a deixa cair... Caindo na forma de chuva, a água novamente se converte num rio."

"Como posso saber que isso é verdade?"

"Pois assim o é, se não acredita, não se tornará outra coisa senão um pântano, ainda isto levaria muitos e muitos anos. E um pântano não é certamente a mesma coisa que um rio."

"Mas não posso continuar sendo o mesmo rio que sou agora?"

"Você não pode, em caso algum, permanecer assim"
- retrucou a voz - "Sua parte essencial é transportada e forma um rio novamente. Você é chamado assim ainda hoje, por não saber qual a sua parte essencial." 

Ao ouvir tais palavras, certos ecos começaram a ressoar nos pensamentos mais profundos do rio. Recordou vagamente um estágio em que ele, ou uma parte dele, não sabia qual, fora transportada nos braços do vento. Também se lembrou, ou lhe pareceu assim, de que isso o que devia fazer, mesmo que não parecesse ser a coisa mais natural. 

E o rio elevou então seus vapores nos acolhedores braços do vento, que suave e facilmente o conduziu para o alto e para bem longe, deixando-o cair suavemente tão logo tinham alcançado o topo de uma montanha, milhas e milhas distante. E porque tivera suas dúvidas, o rio pôde recordar e gravar com mais firmeza em sua mente os detalhes daquela sua experiência. E ponderou: 

"Sim agora conheço a minha verdadeira identidade." 

O rio estava fazendo seu aprendizado, mas as areias sussurraram:

"Nos temos o conhecimento porque vemos essa operação ocorrer dia-após-dia e porque nós, as areias, nos estendemos por todo o caminho que vai desde as margens do rio até a montanha."

E é por isso que se diz, que o caminho pelo qual o Rio da Vida tem de seguir em sua travessia, está escrito nas areias.


Histórias dos Dervixes – Idres Shah.

quinta-feira, 9 de dezembro de 2010

O ELEMENTO INESPERADO

Já altas horas da madrugada, dois bêbados começaram uma discussão bem debaixo da janela de Nasrudin, que acordou, enrolou-se em seu único cobertor  e saiu para tentar acabar com a gritaria. 

Mal começou a sua tentativa de apaziguar os ânimos, um dos bêbados arrancou-lhe o cobertor e os dois saíram correndo.   

“Sobre o que discutiam?”, perguntou a sua mulher logo que Nasrudin voltou.

“Devia ser a respeito do cobertor. Assim que o conseguiram, a briga terminou”. 

quinta-feira, 2 de dezembro de 2010

POR QUE ESTAMOS JUNTOS?


“Todos os grandes mestres dizem que o tesouro espiritual é um descobrimento solitário, então,  por que estamos juntos”, perguntou um dos discípulos ao Mullá Nasrudin.

“Vocês estão juntos porque um bosque sempre é mais forte que uma árvore solitária, o bosque mantém a umidade do ar, resiste melhor a um furação e ajuda para que o solo seja fértil”.

“Porém, o que faz uma árvore forte são as suas raízes e a raiz de uma planta não pode ajudar outra planta crescer”, disse outro discípulo.

Estar juntos num mesmo propósito é deixar que cada um cresça a sua maneira; este é o caminho dos que desejam comungar com Deus. 

terça-feira, 30 de novembro de 2010

CONFIA EN MI

Te Puedo Quitar Tres Minutos De Tu Valioso Tiempo? 

Porque te confundes y te agitas ante los problemas de la vida?

Cuando hayas hecho todo lo que esté en tus manos para tratar de solucionarlos, déjame el resto a Mi.

Si te abandonas en Mi todo se resolverá con tranquilidad según mis desígnios.

No te desesperes, no me dirijas una oración agitada como si quisieras exigirme el cumplimiento de tu deseo. Cierra los ojos del alma y dime con calma..

“Dios, yo confío en ti...”

Evita las preocupaciones y angustias y los pensamientos sobre lo que pueda suceder después.

No estropees mis planes queriéndome imponer tus ideas… 
Déjame ser Dios y actuar con toda la libertad.

Abandónate confiadamente en Mí. Reposa en Mí y deja en Mis manos tu futuro. 

Dime frecuentemente “Dios yo confío en ti...”  Y no seas como el paciente que le pide al médico que lo cure pero le sugiere el modo de hacerlo.

* déjate llevar en mis manos.
* no tengas miedo.
* Yo te Amo!

Si crees que las cosas empeoraron o se complican a pesar de tu oración sigue confiando, cierra los ojos del alma y confia.

Continúa diciéndome a todas horas.. “Dios yo confío en tí...”

Necesito las manos libres para obrar... No me ates con tus  preocupaciones inútiles, satanás (el ego) quiere eso agitarte, angustiarte, quitarte la paz.

Confía solo en Mí, abandónate en mí asi que no te preocupes, echa en mí todas las angustias y duerme tranquilamente…
Dime siempre, “Dios yo confío en ti...” Y verás grandes milagros, Te lo prometo por mi amor.

Recuérdalo siempre... “Confía en mi...”

quinta-feira, 18 de novembro de 2010

SEU TESTAMENTO

Chegou o tempo em que Nasrudin redigiu o seu testamento. Ele simplesmente escreveu:

"Não tenho nada. Permitam que seja dividido igualmente entre os membros de minha família. O que restar deverá ser dado aos pobres!"


quinta-feira, 11 de novembro de 2010

O PERIGO NÃO TEM FAVORITOS

Uma senhora levou seu filho pequeno a escola do Mullá Nasrudin.

"Ele é muito, muitíssimo mal educado, gostaria que o senhor desse um suste no garoto", explicou-lhe a senhora.

O Mullá assumiu uma postura ameaçadora, com um olhar flamejante e um rosto assustador. Deu vários pulos para cima, para baixo e, repentinamente saiu correndo. A senhora desmaiou e quando se recobrou, esperou Nasrudin que retornava lentamente.

"Eu lhe pedi para assustar o garoto, não a mim!"

"Cara  senhora, viu como eu mesmo me assustei? Quando o perigo ameaça, ameaça a todos por igual."

quinta-feira, 4 de novembro de 2010

PICADA DE COBRA

Perguntaram a Nasrudin: "Para que esse antídoto contra picada de cobra?"


"É que peguei um pedaço de pau e achei que era uma cobra". Respondeu o Mullá.

"Mas, um pedaço de pau não o picaria!"


"E a cobra de verdade que eu peguei para bater no pedaço de pau?"

Histórias de Nasrudin (Ed Dervish).

quinta-feira, 21 de outubro de 2010

FIGOS E NÃO ABÓBORAS

Nasrudin havia colhido algumas abóboras em sua horta e pensou em levá-las de presente ao rei Tamerlão.

Um 'amigo' seu, que gostava de brincadeiras de mau-gosto, ao saber das intenções de Mullá, sugeriu que ele levasse figos ao invés de abóboras, 'pois sabia que Tamerlão odiava figos'.

Nasrudin aceitou a sugestão e, com uma bolsa cheia de figos foi visitar o Rei.

"O que você traz ai?", perguntou intrigado Tamerlão, ao ver o Nasrudin entrar no recinto com seu presente.

"Ó Alteza!", exclamou o Mullá curvando-se na presença do rei. "trago-vos um presente que certamente vos agradará".


Ao abrir a sacola e ver os figos, Tamerlão ficou colérico.

"Que brincadeira é esta? Guardas, atirem estes figos horrorosos na cabeça desse homem!"

Imediatamente os figos foram acertando a cabeça do Nasrudin e, a cada vez o Mullá erguia os braços e agradecia a Deus.

Surpreendido, o rei perguntou, "Mullá, o que você está agradecendo?  


"Ó meu senhor, agradeço a Deus por ter trazido figos e não abóboras" 

Histórias de Nasrudin (Ed. DERVISH).
  

terça-feira, 12 de outubro de 2010

SE AO MENOS...



Nasrudin caminhava ao lado de um discípulo quando viu, pela primeira vez na vida, uma linda paisagem refletida em um lago.
“Que maravilha! Mas, se ao menos...”
“Se ao menos o que Mullá?” perguntou o discípulo.
“Se ao menos não tivessem colocado água no lago”.

Histórias de Nasrudin (Ed. Dervish)

quarta-feira, 6 de outubro de 2010

LIÇÕES DE FLAUTA

Nasrudin sempre queria aprender algo novo, então um dia ele teve pensou em aprender a tocar flauta. 

Assim foi a um professor de música e perguntou-lhe: "Quanto cobra por lições de flauta"?

"Três peças de ouro o primeiro mês e depois uma peça por mês".

"Oh! muito bem", exclamou Nasrudim. "Então começaremos pelo segundo mês". 



quinta-feira, 16 de setembro de 2010

A Farmácia Cósmica de Nasrudin

Nasrudin estava desempregado. Perguntou, então, a alguns amigos que tipo de profissão deveria seguir.

 “Bem, Nasrudin”, disseram, "você é muito capaz e conhece bastante as propriedades medicinais das ervas. Poderia abrir uma farmácia".

Nasrudin foi para casa, pensou e disse para si mesmo: "sim, acho que é uma boa idéia. Acho que sou capaz de fazer isso."

Naturalmente, sendo Nasrudin, nessa ocasião em particular passava por um de seus momentos de desejar ser proeminente e importante. Assim, pensou: "Não abrirei apenas uma loja de ervas ou uma farmácia que lide com ervas; abrirei algo grandioso e que cause um forte impacto".

Comprou uma loja, instalou prateleiras e armários e quando chegou a hora de pintar a fachada, montou um andaime, cobriu-o com chapas e trabalhou atrás delas. Não deixou que ninguém visse o nome que daria à farmácia ou como a fachada estava sendo pintada.

Após vários dias, distribuiu folhetos que diziam: "Grande inauguração, amanhã às nove horas".

Todos de sua aldeia e das aldeias vizinhas vieram e ficaram esperando em frente à nova loja. Às nove horas, Nasrudin apareceu, retirou a placa da frente e lá estava um enorme cartaz onde se lia: "Farmácia Cósmica e Galáctica de Nasrudin" e abaixo estava escrito: "Influenciada e harmonizada com influências planetárias".

Muita gente ficou impressionada e ele fez um ótimo negócio naquele dia. Ao anoitecer, um professor local aproximou-se de Nasrudin e lhe disse: "Francamente, essas alegações que você faz são um pouco duvidosas".

"Não, não", respondeu Nasrudin, "cada alegação que faço sobre influência planetária é absolutamente correta. Quando o sol se levanta, abro a farmácia e quando o sol se põe, eu fecho."

Portanto, podem haver diferentes interpretações sobre quanto a influência planetária afeta alguém e sobre o quanto dessas influências alguém recebe ou usa. 



Extraído da obra: "O sufismo como terapia" (Omar Ali-Shah)

quinta-feira, 9 de setembro de 2010

El préstamo

Un hombre decia a sus amigos en la casa de té:

"Presté a alguien una moneda de plata, y no tengo testigos; temo que quien la recibio niegue que yo la haya puesto en sus manos".

Sus amigos le compadecieron, pero un sufi, que estaba sentado en un rincón, alzó la cabeza y dijo:

"Invítale aqui a tomar un té, y dile, en presencia de toda esta gente, que le prestaste veinte monedas de oro".

"Como voy a hacerlo si sólo le presté una de plata?".

"Eso es exactamente lo que él te responderá indignado", dijo el sufi, "y todos podrán oírlo de sus labios. No querias testigos?".

Extraido do livro: Cuentos de Oriente para niños de Occidente

quinta-feira, 2 de setembro de 2010

O QUE LHE FALTA

Certo dia, um juiz perguntou a Nasrudin:

"Mullá, no caso de você ter de escolher entre a justiça e o dinheiro, o que você escolheria?"

"O dinheiro, é claro!" - respondeu Nasrudin, sem pestanejar.

"O quê!" disse o juiz. "Pois eu escolheria a justiça sem pensar duas vezes, porque a justiça não é fácil de ser encontrada, enquanto o dinheiro, este não é tão raro assim. Estou espantado com a sua opção. Não o julgava capaz de uma ambição, sendo um mestre!"

"Meritíssimo, cada um deseja aquilo que lhe falta".

quinta-feira, 26 de agosto de 2010

IDÉIA FIXA

Certa vez perguntaram ao Nasrudin: "quantos anos você tem Hodja?".

Ele respondeu: "quarenta".

"Como pode ser? Dois anos atrás você já dizia que tinha quarenta anos".

"É que eu sempre sustento o que digo", esclareceu o Mullá

quinta-feira, 19 de agosto de 2010

A ILHA DESERTA

Certa vez um homem rico, de natureza boa e generosa queria que o seu escravo fosse feliz. Para isso lhe deu a liberdade e um navio carregado de mercadorias.
“Agora você está livre”, disse o homem. “Vá e venda esses produtos em diversos países e tudo o que conseguir por eles será seu.”
O escravo liberto embarcou no navio e viajou através do imenso oceano.
Não havia viajado muito tempo quando caiu uma tempestade. O barco foi arremessado violentamente contra os rochedos e se fez em pedaços; tudo o que havia a bordo se perdeu. Somente o ex-escravo conseguiu se salvar, nadando até alcançar a praia de uma ilha próxima.
Triste, abatido e só, nu e sem nada, o ex-escravo caminhou até chegar a uma cidade grande e linda. Onde as pessoas se aproximaram para recebê-lo, gritando:
“Bem vindo! Bem vindo! Vida longa ao rei!”
Trouxeram uma rica carruagem, onde o colocaram e escoltaram-no até um magnífico palácio. Lá muitos servos se reuniram ao seu redor, vestiram-no com roupas reais e todos se dirigiam a ele como seu soberano, em total obediência à sua vontade.
O ex-escravo, naturalmente, ficou feliz e, ao mesmo tempo, confuso. Ele desejava saber se estava sonhando ou se tudo o que via, ouvia ou experimentava não passava de uma fantasia passageira.
Convenceu-se, finalmente, de que o que estava acontecendo era real. E perguntou a algumas pessoas próximas a ele, como havia chegado àquela situação.
“Afinal, sou um homem sobre de quem vocês nada conhecem, um pobre e despido vagabundo que nunca viram antes. Como podem transformar-me em seu governante? Isto me causa muito mais espanto do que possa dizê-lo.”
“Senhor, esta ilha é habitada por espíritos. Há muito tempo eles rezaram para que lhes fosse enviado um filho do homem que os governá-los, e suas preces foram ouvidas. Todos os anos é enviado um filho do homem. Eles o recebem com grande dignidade e o colocam no trono. Porém seu ‘status’ e seu poder acabam quando se completa o ano. Então lhe tiram as vestes reais e o põe a bordo de um barco que o leva para uma grande ilha deserta. Lá, a não ser que antes tenha sido sábio e tenha se preparado para esse dia, não encontra amigos, não encontra nada: vê-se obrigado a passar uma vida aborrecida, solitária e miserável. Elege-se então um novo rei, e assim acontece ano após ano. Os reis que o antecederam foram descuidados e não pensaram. Desfrutaram completamente do seu poder, esquecendo-se do dia em que tudo se acabaria."
Essas pessoas aconselharam ao ex-escravo a ser sábio e permitir que suas palavras permanecessem dentro do seu coração.
O novo rei ouviu tudo atentamente, e lamentou ter perdido o pouco tempo que havia passado desde que chegara à ilha. Em seguida pediu ao homem de conhecimento que havia falado:
“Aconselhe-me, ó Espírito da Sabedoria, como devo preparar-me para os dias que chegarão.”
“Nu você chegou até nós e nu será enviado à ilha deserta da qual lhe falei. Agora você é rei e pode fazer o que quiser. Por isso mande trabalhadores à ilha e permita-lhes que construam casas, preparem a terra e tornem belas as redondezas. Os terrenos áridos devem ser transformados em campos frutíferos. As pessoas deverão ir viver lá e você estabelecerá um reino para si mesmo. Seus próprios súditos estarão esperando quando você chegar para dar-lhe as boas-vindas. O ano é curto, o trabalho é longo: seja diligente e enérgico.”
O rei seguiu o conselho. Mandou trabalhadores e materiais para a ilha deserta, e antes de findar a vigência de seu poder a ilha se transformou num lugar fértil, aprazível e atraente.
Os governantes que o tinham precedido haviam antecipado o fim de seu tempo com medo, ou afastavam este pensamento se divertindo. Ele, porém o aguardava com alegria, uma vez que então poderia começar sobre a base da paz permanente e felicidade.
O dia chegou. O escravo liberto que tinha sido feito rei foi despojado de sua autoridade. Ao perder seus trajes reais, perdeu também seus poderes. Nu, foi colocado num barco, e as velas inflaram em direção à ilha. Porém quando se aproximou da praia as pessoas que tinham sido enviadas antes para lá vieram para recebê-lo com música, canções e muita alegria. Fizeram-no seu governante, e ele viveu em paz.

quinta-feira, 5 de agosto de 2010

O Cavalo Mágico

Era uma vez, não faz muito tempo, um reino cujos habitantes eram extremamente prósperos. Tinham feito toda espécie de descobertas a respeito do crescimento das plantas, da colheita e da conservação de frutos, da manufatura de objetos para vender a outros países, e de muitas outras artes práticas.
Seu soberano era possuidor de uma sabedoria incomum. Incentivava novas descobertas e toda espécie de atividades, pois sabia das vantagens que traziam para seus súditos.
O rei tinha um filho chamado Hoshyar, perito no uso de estranhos aparelhos, e outro chamado Tambal, sonhador, que parecia estar interessado somente naquelas coisas que o povo achava de pouco valor.
De tempos em tempos, o rei Mumkin, assim se chamava o soberano, mandava arautos divulgar que:
"Todos aqueles que tiverem invenções notáveis e artefatos úteis, levem-nos ao palácio, onde serão examinados, de modo que seus inventores sejam devidamente recompensados".
Acontece que naquele país havia dois homens, um ferreiro e um marceneiro, que se rivalizavam em muitas coisas, gostando os dois de construir estranhos artefatos.
Um dia, ao ouvir o anúncio aceitaram competir por um prêmio, para que seu soberano decidisse, de uma vez por todas, a qual deles correspondia maior mérito. Esperavam que essa decisão fosse reconhecida publicamente.
Desse modo, o ferreiro, empregando uma multidão de talentosos especialistas, trabalhou dia e noite na construção de uma poderosa máquina. Para que seus inventos e métodos permanecessem secretos, ele construiu altos muros ao redor de sua oficina.
Ao mesmo tempo, o marceneiro pegava suas ferramentas simples e se dirigira ao bosque, onde, após uma longa e solitária meditação, preparou sua obra prima.
As notícias sobre a competição entre os dois se espalharam. As pessoas achavam que o ferreiro venceria facilmente, pois seus engenhosos trabalhos já eram conhecidos, e, embora de modo geral os produtos do marceneiro fossem admirados seu uso era considerado ocasional e pouco impressionante.
Quando ambos estavam prontos, o rei os recebeu na corte.
O ferreiro tinha fabricado um enorme peixe metálico que, segundo dizia, podia nadar tanto na superfície quanto sob a água. Podia transportar grande quantidade de carga sobre a terra firme, podia escavar túneis e até voar lentamente pelos ares.
A princípio, a corte duvidou que tal maravilha pudesse ter sido construída por um homem, mas quando o ferreiro e seus assistentes fizeram uma demonstração o rei ficou maravilhado, e proclamou o ferreiro um dos homens mais honoráveis do reino, em uma categoria especial, e honrou-o com o título de Benfeitor da Comunidade.
O príncipe Hoshyar foi encarregado da fabricação dos maravilhosos peixes, e os benefícios do novo invento ficaram ao alcance de toda humanidade.
Todos louvavam o ferreiro, Hoshyar e o benigno e sagaz monarca, a quem tanto amavam.
No meio daquele entusiasmo, todos se esqueceram do modesto marceneiro, até que um dia alguém perguntou:
— Que houve com a competição? Onde está o trabalho do marceneiro? Sabemos que é um homem engenhoso. Talvez tenha fabricado algo útil.
— Como pode haver algo tão útil como os peixes maravilhosos? — perguntou Hoshyar, e muitos, entre os cortesãos e as pessoas do povo, concordaram com ele.
Um dia o rei estava muito aborrecido. Acostumara-se com a novidade dos peixes e com as notícias das maravilhas que executavam.
— Chamem o marceneiro – disse, então. — Gostaria de ver o que ele fez.
O humilde marceneiro, carregando um volume envolto num pano ordinário, entrou na sala do trono. Todos da corte se voltaram, curiosos, para ver o que ele trazia.
Ele desembrulhou o pacote, revelando... um cavalo de madeira. Era finamente talhado, com um complicado desenho esculpido em seu corpo e decorado com pinturas coloridas. Mas era apenas...
— Um simples brinquedo! – explodiu o rei.
— Pai – disse o príncipe Tambal, — perguntemos ao homem para que serve...
— Muito bem – disse o rei. – Para que serve?
— Majestade, é um cavalo mágico – balbuciou o marceneiro. – Não impressiona à vista, mas possui algo semelhante a sentidos internos. Ao contrário do peixe, que deve ser guiado, este cavalo pode interpretar os desejos de seu ginete e levá-lo aonde for necessário que vá.
— Semelhante bobagem só serve para Tambal – murmurou o primeiro-ministro, que estava junto ao rei. — Não pode ter nenhuma utilidade real, se comparado com o maravilhoso peixe.
Triste, o marceneiro preparava-se para partir, quando Tambal disse:
— Pai, deixe-me ficar com o cavalo de madeira.
— Muito bem — disse o rei. — Dêem-lhe o cavalo. Levem o marceneiro e amarrem-no a uma árvore para que compreenda como nosso tempo é valioso. Deixem que contemple a prosperidade que o peixe maravilhoso nos trouxe. Depois de algum tempo talvez o libertemos para que, tendo refletido, pratique o que aprendeu a respeito da verdadeira engenhosidade.
O marceneiro foi conduzido ao seu destino, e o príncipe Tambal retirou-se, levando consigo o cavalo mágico.
Em seus aposentos, descobriu que o cavalo tinha vários botões, habilmente disfarçados, entre os desenhos esculpidos. Quando eram girados de determinada forma, o cavalo juntamente com quem o estivesse montando, elevava-se no ar e voava veloz para qualquer lugar imaginado por seu cavaleiro.
Dia após dia Tambal voou por lugares que nunca tinha visitado antes, e assim chegou a conhecer uma grande quantidade de coisas. Aonde quer que fosse, Tambal levava consigo o cavalo.
Um dia encontrou-se com Hoshyar, que lhe disse:
— Carregar um cavalo de madeira é uma ocupação própria para alguém como você. Quanto a mim, trabalho para o bem de todos, obedecendo ao desejo do meu coração.
Tambal pensou:
"Gostaria de saber qual é o bem de todos e qual seria o desejo do meu coração".
Voltando a seus aposentos, sentou-se sobre o cavalo e pensou:
"Gostaria de encontrar o desejo do meu coração".
Então girou alguns botões no pescoço do cavalo.
Mais veloz do que a luz, o cavalo elevou-se nos ares e levou o príncipe para um reino distante, governado por um rei mago. Normalmente teria levado mil dias viajando para chegar àquele reino.
O rei, cujo nome era Kahana, tinha uma linda filha, chamada Pérola Preciosa, Duri-Karima. Para protegê-la, o rei encerrou-a num palácio que girava nos céus, muito mais alto do que qualquer mortal pudesse alcançar. Tambal viu o reluzente palácio no céu e foi até lá. A princesa e o jovem cavaleiro se conheceram e apaixonaram-se.
— Meu pai jamais permitirá que nos casemos – disse ela, — pois ordenou que eu fosse esposa do filho de outro rei mago que vive a leste daqui, depois do deserto gelado. Prometeu que, quando eu tiver idade suficiente, promoverá a união de ambos os reinos através do meu casamento. Sua vontade jamais foi contrariada com êxito por pessoa alguma.
— Irei vê-lo e tentarei argumentar com ele – respondeu Tambal, montando novamente em seu cavalo mágico.
Acontece que, quando desceu na terra mágica, havia tantas coisas novas e excitantes para ver que ele não foi logo ao palácio. Quando finalmente chegou às suas portas, o tambor da entrada já tocava anunciando a ausência do rei.
Tambal perguntou a um homem que passava quando o rei regressaria.
— Ele foi visitar a filha no Palácio Giratório e costuma passar várias horas com ela – respondeu o homem.
Tambal foi para um lugar afastado, desejou que seu cavalo o levasse aos aposentos do rei e pensando consigo mesmo:
"Eu me aproximarei dele em sua própria casa, pois poderá zangar-se se for procurá-lo no Palácio Giratório sem sua permissão".
Quando se encontrava no quarto do rei, Tambal escondeu-se atrás de umas cortinas e adormeceu.
Enquanto isso, incapaz de guardar seu segredo, a princesa Pérola Preciosa confessou ao pai que, fora visitada por um homem montado num cavalo voador e que, ele queria casar-se com ela. Kahana ficou furioso. Pôs sentinelas à volta do Palácio Giratório e voltou aos seus aposentos para refletir sobre o acontecido. Mal entrou em seu quarto um dos mágicos servos mudos que o protegiam apontou para o cavalo de madeira que estava em um canto.
— Aha! – exclamou o mago.— Está em minhas mãos. Vamos observar seu cavalo para saber o que é.
Enquanto ele e os servos examinavam o cavalo, o príncipe conseguiu fugir e esconder-se em outro lugar do palácio.
Depois de girar os botões, bater de leve no cavalo e tentar entender seu funcionamento, o rei parecia confuso.
— Levem isso daqui. Já não tem nenhuma virtude, embora possa ter tido um dia – disse. — É uma bobagem própria para crianças, e só.
O cavalo foi guardado num armário de coisas velhas.
Então o rei Kahana achou que deveria começar imediatamente os preparativos para o casamento de sua filha, supondo que o fugitivo teria outros poderes ou invenções para conquistá-la. Levou a princesa para seu próprio palácio e enviou uma mensagem ao outro rei mago, pedindo-lhe que o príncipe que ia desposá-la viesse pedir a sua mão.
Enquanto isso tendo escapado do palácio à noite, quando alguns guardas dormiam, o príncipe Tambal decidiu que deveria tentar retornar ao seu país. A busca do desejo do seu coração parecia quase impossível agora.
"Mesmo que leve o resto de minha vida, voltarei com tropas para tomar este reino à força", disse consigo mesmo. "Só poderei fazer isso se convencer meu pai de que preciso da sua ajuda para conseguir o desejo do meu coração".
Dizendo isto, partiu. Jamais houve homem tão mal equipado quanto ele para semelhante viagem. Era estrangeiro, viajava a pé e sem provisões, enfrentando dias de calor insuportável e noites geladas, sofrendo debaixo de terríveis tempestades de areia. Não demorou muito para que se visse irremediavelmente perdido no deserto.
Naquela situação, em seu delírio, Tambal começou a culpar a si mesmo, a seu pai, ao rei mago, ao marceneiro, até a princesa e ao próprio cavalo mágico. Algumas vezes pensava que via água a sua frente ou cidades maravilhosas. Em certos momentos se sentia eufórico, em outros muito triste. Houve ocasiões em que imaginou que tivesse companheiros em suas dificuldades, mas ao despertar estava totalmente só. Parecia-lhe que a viagem já durava uma eternidade.
Depois de ter desanimado por várias vezes e começado tudo de novo, viu alguma coisa a sua frente que parecia uma miragem: um jardim cheio de frutas deliciosas, cintilantes, que pareciam convidá-lo a apanhá-las. A princípio Tambal não acreditou. Mas continuou a caminhar e viu que estava realmente atravessando aquele jardim. Apanhou algumas frutas e provou-as com cuidado. Eram deliciosas. Fizeram-no perder o medo, e também a fome e a sede.Quando se viu satisfeito, deitou-se à sombra de uma árvore enorme e hospitaleira, e dormiu.
Ao acordar, sentia-se muito bem, embora alguma coisa parecesse estar errada. Correu até um lago próximo, olhou-se no espelho das águas. Teve diante de si uma horrível visão: a imagem refletida tinha uma longa barba, chifres retorcidos e orelhas enormes. Olhou então para suas mãos e estavam cobertas de pêlos.
Seria um pesadelo? Procurou acordar dando-se beliscões e bofetadas, sem resultado. Descontrolado, fora de si de tanto medo e horror, tomado por acessos de gritos e cansado de tanto chorar, atirou-se no chão.
"Quer viva, quer morra", pensou, "estes frutos malditos me arruinaram definitivamente. Mesmo que eu tivesse o maior exército de todos os tempos, de nada adiantaria. Ninguém se casaria comigo agora, muito menos a princesa Pérola Preciosa. Não posso imaginar um animal sequer que não ficasse apavorado ao ver-me, quanto mais aquela que é o desejo do meu coração".
Nesse instante Tambal perdeu os sentidos. Quando voltou a si já estava escuro. Uma luz se aproximava através do bosque de árvores silenciosas. Medo e esperança debateram-se dentro dele. À medida que a luz se aproximava pode ver o que era. Provinha de uma lanterna em forma de uma estrela brilhante. Era carregada por um homem de barba, que caminhava, se orientando pela luz que projetava ao seu redor. O homem avistou Tambal e disse:
— Meu filho, você foi vítima das influências deste lugar. Se eu não passasse por aqui seria um animal a mais neste jardim encantado, onde há muitos como você. Mas eu posso ajudá-lo.
Tambal se perguntou, se aquele homem não seria um espírito maligno, disfarçado talvez, o dono daquelas árvores malditas. Mas, quando recuperou totalmente a consciência, percebeu que não tinha nada a perder.
— Ajude-me, pai – disse.
— Se realmente quer o desejo do seu coração – falou o homem, — você deve fixar o seu desejo firmemente em sua mente e esquecer-se do fruto. Depois você deve pegar não os frutos frescos e deliciosos, mas alguns secos que estão debaixo destas árvores. Coma-os e siga o seu destino.
Disse isto e afastou-se.
Enquanto a luz do sábio ia desaparecendo na escuridão, Tambal viu que a Lua surgia e, à luz de seus raios, pôde ver que realmente havia muitas frutas secas sob as árvores. Juntou algumas e comeu-as tão rápido quanto pôde. Pouco a pouco, enquanto observava, os pêlos desapareceram de suas mãos e braços. Os chifres, primeiro, diminuíram, e, depois, desapareceram. Sua barba caiu. Voltara a ser o mesmo.
Naquele momento começavam a surgir as primeiras luzes do dia, e Tambal ouviu o tilintar de campainhas de camelos. Um cortejo vinha atravessando o bosque encantado. Era, sem dúvida, a caravana de algum personagem importante em uma longa viagem.
Enquanto Tambal estava lá, absorto e imóvel, dois cavaleiros se separaram da resplandecente escolta e galoparam até ele.
— Em nome do príncipe, nosso senhor, queremos algumas de suas frutas. Sua alteza celestial está com sede e manifestou o desejo de comer alguns destes estranhos damascos – disse um deles.
Tambal, porém, permanecia imóvel, ainda abalado por suas recentes experiências. O próprio príncipe desceu então de seu palanquim e lhe disse:
— Eu sou Jadugarzada, filho do rei mago do leste. Aqui está uma bolsa com moedas de ouro, idiota. Comerei algumas frutas, já que estou com vontade. Tenho pressa e não posso perder tempo, pois vou pedir a mão de minha noiva, Pérola Preciosa, filha de Kahana, rei mago do oeste.
Ao ouvir estas palavras o coração de Tambal se contraiu. Compreendendo, porém, que aquele deveria ser o destino que o sábio o mandara seguir, ofereceu ao príncipe todas as frutas que quisesse comer.
Uma vez satisfeito, o príncipe pôs-se a dormir. Logo lhe começaram a crescer enormes orelhas, chifres e pêlos. Os soldados sacudiram-no, mas o príncipe agiu de maneira estranha. Achava que ele era o normal e os outros os disformes.
Os conselheiros que acompanhavam o cortejo acalmaram o príncipe e travaram uma rápida discussão. Tambal afirmava que nada teria acontecido se o príncipe não tivesse adormecido.
Finalmente, decidiram por Tambal no palanquim para que desempenhasse o papel do príncipe. Jadugarzada, disfarçado de criada, com um véu escondendo-lhe o rosto e os chifres, foi amarrado a um cavalo.
— Talvez recobre o juízo mais tarde – disseram os conselheiros – e continue sendo o nosso príncipe. Tambal se casará com a moça, e depois, logo que seja possível, levaremos todos para o nosso país, a fim de que o rei solucione o problema.
Tambal, à espera do momento oportuno e seguindo o seu destino, aceitou participar da farsa. Quando o cortejo chegou à capital do oeste, o rei foi pessoalmente recebê-los. Tambal foi apresentado à princesa como seu noivo. Surpresa ela quase desmaiou, mas Tambal conseguiu sussurrar-lhe ao ouvido o que acontecera. E foram devidamente casados, em meio a grandes festejos.
Enquanto isso, o infeliz príncipe recobrava um pouco o juízo, mas não a aparência humana, e a escolta ainda o mantinha encoberto.
Logo que os festejos chegaram ao fim, o chefe do cortejo do príncipe de chifres, que tinha estado vigiando Tambal e a princesa bem de perto, apresentou-se à corte e disse:
— Ó justo e glorioso monarca, fonte de sabedoria. De acordo com as declarações de nossos astrólogos e adivinhos, chegou o momento de levar o casal de noivos para a nossa terra, a fim de que se restabeleçam em seu novo lar, nas circunstâncias mais felizes e sob influências propícias.
A princesa, alarmada, olhou para Tambal, pois sabia que Jadugarzada a reclamaria para si logo que se pusessem a caminho, dando fim a Tambal. Mas Tambal murmurou-lhe:
— Não tema. Devemos representar o melhor que pudermos, seguindo o nosso destino. Concorde em partir, mas imponha a condição de que você só viajará levando o cavalo de madeira.
A princípio, o rei mago ficou aborrecido com aquele capricho da filha. Imaginou que ela queria o cavalo porque ele estava ligado ao primeiro pretendente. Mas, o chefe dos ministros do príncipe disse:
— Majestade, não acho que isto seja mais do que um capricho por um brinquedo, que seria normal em qualquer criança. Espero que lhe dê seu cavalo para que possamos nos por a caminho.
O rei mago concordou e o cortejo pôs-se em marcha. Logo que a escolta se retirou, antes do descanso da primeira noite, o horrendo Jadugarzada tirou o véu e gritou para Tambal:
— Miserável, causador da minha desgraça! Vou amarrar seus pés e suas mãos e o levarei para minha terra como prisioneiro. Quando chegarmos lá, se não me disser como desmanchar este feitiço mandarei esfolá-lo vivo, pouco a pouco. Agora me entregue a princesa Pérola Preciosa.
Tambal protegendo a princesa e, diante do assombrado cortejo, elevando-se pelos ares montado em seu cavalo de madeira, levou consigo Pérola Preciosa.
Em poucos minutos o casal desceu no palácio do rei Mumkin. Contaram-lhe tudo o que lhes havia acontecido e o rei ficou extremamente feliz por vê-los sãos e salvos.
Imediatamente, ordenou que o infeliz marceneiro fosse libertado, recompensado e aclamado por todas as pessoas do reino.
Quando o rei foi reunir-se a seus antepassados, a princesa Pérola Preciosa e o príncipe Tambal sucederam-lhe no trono O príncipe Hoshyar ficou satisfeito também, pois continuava fascinado pelo peixe maravilhoso.
— Estou feliz por vê-los felizes – costumava dizer. – Mas para mim nada é mais compensador do que, dedicar-me ao peixe maravilhoso.

***

Esta história é a origem de uma estranha máxima que corre entre as pessoas daquelas terras, embora a sua origem tenha sido esquecida. A máxima diz:
"Quem deseja peixes pode conseguir muito através dos peixes, e quem não conhece o desejo de seu coração deve ouvir primeiro a história do cavalo de madeira".

História publicada em: Histórias da Tradiçao Sufi

sexta-feira, 30 de julho de 2010

O EMPRÉSTIMO

Na casa de chá um homem dizia aos amigos:

Emprestei uma moeda de prata a uma pessoa e não tenho testemunhas. Receio que quem a recebeu negue que a pus em suas mãos.

Os amigos fiacram com pena dele, mas um homem sábio que estava sentado em um canto ergueu a cabeça e disse:

"Convide-o para tomar chá aqui e diga-lhe, na presença de todos, que você lhe emprestou vinte moedas de ouro." 

"Como posso fazer isto se só lhe emprestei uma moeda e prata?"

"É exatamente isso o que ele vai responder idignado, disse o sufi, e todos poderão ouvi-lo. Você não queria testemunhas?".

O HOMEM CUJA HISTÓRIA ERA INESPLICÁVEL

Era uma vez um homem chamado Mojud. Ele vivia numa cidade onde havia conseguido um emprego como pequeno funcionário público, e tudo levava...