quinta-feira, 23 de dezembro de 2010

FÁTIMA A FIANDEIRA

Numa cidade do mais longínquo Ocidente vivia uma jovem chamada Fátima, filha de um próspero fiandeiro. Um dia o pai lhe disse:
— Filha, nós faremos uma viagem, pois tenho negócios a resolver nas ilhas do Mediterrâneo. Talvez você encontre por lá um jovem atraente, de boa posição, com quem possa então se casar.
Iniciaram assim sua viagem, indo de ilha em ilha; o pai cuidando de seus negócios, Fátima sonhando com o homem que poderia vir a ser seu marido. Mas um dia, quando se dirigiam a Creta, armou-se uma tempestade e o barco naufragou. Semi-inconsciente, Fátima foi arrastada pelas ondas até uma praia perto de Alexandria. Seu pai estava morto, e ela ficou inteiramente desamparada.
Podia recordar-se apenas vagamente de sua vida até aquele momento, pois a experiência do naufrágio e o fato de ter ficado exposta às inclemências do mar a tinham deixado completamente exausta e aturdida.
Enquanto vagava pela praia, uma família de tecelões a encontrou. Embora fossem pobres, levaram-na para sua humilde casa e ensinaram-lhe seu ofício. Desse modo Fátima iniciou nova vida e, em um ou dois anos, voltou a ser feliz, reconciliada com sua sorte. Porém um dia, quando estava na praia, um bando de mercadores de escravos desembarcou e levou-a, junto com outros cativos.
Apesar dela se lamentar amargamente de seu destino, eles não demonstraram nenhuma compaixão: levaram-na para Istambul e venderam-na como escrava. Pela segunda vez o mundo da jovem ruíra.
Mas quis a sorte que no mercado houvesse poucos compradores na ocasião. Um deles era um homem que procurava escravos para trabalhar em sua serraria, onde fabricava mastros para embarcações. Ao perceber o ar desolado e o abatimento de Fátima, decidiu comprá-la, pensando que poderia proporcionar-lhe uma vida um pouco melhor do que teria nas mãos de outro comprador.
Ele levou Fátima para casa com a intenção de fazer dela uma criada para sua esposa. Mas ao chegar em casa soube que tinha perdido todo o seu dinheiro quando um carregamento fora capturado por piratas. Não poderia enfrentar as despesas que lhe davam os empregados, e assim ele, Fátima e sua mulher arcaram sozinhos com a pesada tarefa de fabricar mastros.
Fátima, grata ao seu patrão por tê-la resgatado, trabalhou tanto e tão bem que ele lhe deu a liberdade, e ela passou a ser sua ajudante de confiança. Assim ela chegou a ser relativamente feliz em sua terceira profissão.
Um dia ele lhe disse:
— Fátima, quero que vá a Java, como minha representante, com um carregamento de mastros; procure vendê-los com lucro.
Ela então partiu. Mas quando o barco estava na altura da costa chinesa um tufão o fez naufragar. Mais uma vez Fátima se viu jogada como náufraga em uma praia de um país desconhecido. De novo chorou amargamente, porque sentia que nada em sua vida acontecia como esperava. Sempre que tudo parecia andar bem alguma coisa acontecia e destruía suas esperanças.
— Por que será — perguntou pela terceira vez — que sempre que tento fazer alguma coisa não da certo? Por que devo passar por tantas desgraças?
Como não obteve respostas, levantou-se da areia e afastou-se da praia.
Acontece que na China ninguém tinha ouvido falar de Fátima ou de seus problemas. Mas existia a lenda de que um dia chegaria certa mulher estrangeira capaz de fazer uma tenda para o imperador. Como naquela época não existia ninguém na China que soubesse fazer tendas, todo mundo aguardava com ansiedade o cumprimento da profecia.
Para ter certeza de que a estrangeira ao chegar não passaria despercebida, uma vez por ano os sucessivos imperadores da China costumavam mandar seus mensageiros a todas as cidades e aldeias do país pedindo que toda mulher estrangeira fosse levada à corte.
Exatamente numa dessas ocasiões, esgotada, Fátima chegou a uma cidade costeira da China. Os habitantes do lugar falaram com ela através de um intérprete e explicaram-lhe que devia ir à presença do imperador.
— Senhora— disse o imperador quando Fátima foi levada até ele — sabe fabricar uma tenda?
— Acho que sim, Majestade — respondeu.
Pediu cordas, mas não tinham. Lembrando-se dos seus tempos de fiandeira, Fátima colheu linho e fez as cordas. Depois pediu um tecido resistente, mas os chineses não o tinham do tipo que ela precisava. Então, utilizando sua experiência com os tecelões de Alexandria, fabricou um tecido forte, próprio para tendas. Percebeu que precisava de estacas para a tenda, mas não existiam no país. Lembrando-se do que lhe ensinara o fabricante de mastros em Istambul, Fátima fabricou umas estacas firmes. Quando estas estavam prontas ela puxou de novo pela memória, procurando lembrar-se de todas as tendas que tinha visto em suas viagens. E uma tenda foi construída.
Quando a maravilha foi mostrada ao imperador da China ele se prontificou a satisfazer qualquer desejo que Fátima expressasse. Ela escolheu morar na China, onde se casou com um belo príncipe, e, rodeada por seus filhos, viveu muito feliz até o fim de seus dias.
Através dessas aventuras Fátima compreendeu que o que em cada ocasião lhe tinha parecido ser uma experiência desagradável acabou sendo parte essencial de sua felicidade

Histórias da Tradiçao Sufi (Ed. DERVISH)

quinta-feira, 16 de dezembro de 2010

A LENDA DAS AREIAS

Vindo desde as suas origens em distantes montanhas, após passar por inúmeros acidentes de terrenos nas regiões campestres, um rio finalmente alcançou as areias do deserto. E do mesmo modo como vencera as outras barreiras, o rio tentou atravessar esta de agora, mas se deu conta de que suas águas mal tocavam a areia nela desapareciam.

Estava convicto, no entanto, de que fazia parte do seu destino cruzar aquele deserto, embora não visse como fazê-lo. Então uma voz misteriosa, saída do próprio deserto, sussurrou:

"O vento cruza as areias do deserto, o mesmo pode fazer o rio."

O rio objetou estar se arremessando contra as areias, sendo assim absorvido, enquanto que o vento podia voar, conseguindo dessa maneira atravessar o deserto. 

"Arrojando-se com violência como vem fazendo não conseguirá cruzá-lo. Assim desaparecerá ou se transformará num pântano. Deve permitir que o vento o conduza a seu destino."

"Mas como isso pode acontecer?"

"Consentindo em ser absorvido pelo vento."

Tal sugestão não era aceitável para o rio. Afinal de contas, ele nunca fora absorvido até então. Não desejava perder a sua individualidade. Uma vez a tendo perdido, como se poderá saber se a recuperaria mais tarde?

"O vento desempenha essa função. Eleva a água, a conduz sobre o deserto e depois a deixa cair... Caindo na forma de chuva, a água novamente se converte num rio."

"Como posso saber que isso é verdade?"

"Pois assim o é, se não acredita, não se tornará outra coisa senão um pântano, ainda isto levaria muitos e muitos anos. E um pântano não é certamente a mesma coisa que um rio."

"Mas não posso continuar sendo o mesmo rio que sou agora?"

"Você não pode, em caso algum, permanecer assim"
- retrucou a voz - "Sua parte essencial é transportada e forma um rio novamente. Você é chamado assim ainda hoje, por não saber qual a sua parte essencial." 

Ao ouvir tais palavras, certos ecos começaram a ressoar nos pensamentos mais profundos do rio. Recordou vagamente um estágio em que ele, ou uma parte dele, não sabia qual, fora transportada nos braços do vento. Também se lembrou, ou lhe pareceu assim, de que isso o que devia fazer, mesmo que não parecesse ser a coisa mais natural. 

E o rio elevou então seus vapores nos acolhedores braços do vento, que suave e facilmente o conduziu para o alto e para bem longe, deixando-o cair suavemente tão logo tinham alcançado o topo de uma montanha, milhas e milhas distante. E porque tivera suas dúvidas, o rio pôde recordar e gravar com mais firmeza em sua mente os detalhes daquela sua experiência. E ponderou: 

"Sim agora conheço a minha verdadeira identidade." 

O rio estava fazendo seu aprendizado, mas as areias sussurraram:

"Nos temos o conhecimento porque vemos essa operação ocorrer dia-após-dia e porque nós, as areias, nos estendemos por todo o caminho que vai desde as margens do rio até a montanha."

E é por isso que se diz, que o caminho pelo qual o Rio da Vida tem de seguir em sua travessia, está escrito nas areias.


Histórias dos Dervixes – Idres Shah.

quinta-feira, 9 de dezembro de 2010

O ELEMENTO INESPERADO

Já altas horas da madrugada, dois bêbados começaram uma discussão bem debaixo da janela de Nasrudin, que acordou, enrolou-se em seu único cobertor  e saiu para tentar acabar com a gritaria. 

Mal começou a sua tentativa de apaziguar os ânimos, um dos bêbados arrancou-lhe o cobertor e os dois saíram correndo.   

“Sobre o que discutiam?”, perguntou a sua mulher logo que Nasrudin voltou.

“Devia ser a respeito do cobertor. Assim que o conseguiram, a briga terminou”. 

quinta-feira, 2 de dezembro de 2010

POR QUE ESTAMOS JUNTOS?


“Todos os grandes mestres dizem que o tesouro espiritual é um descobrimento solitário, então,  por que estamos juntos”, perguntou um dos discípulos ao Mullá Nasrudin.

“Vocês estão juntos porque um bosque sempre é mais forte que uma árvore solitária, o bosque mantém a umidade do ar, resiste melhor a um furação e ajuda para que o solo seja fértil”.

“Porém, o que faz uma árvore forte são as suas raízes e a raiz de uma planta não pode ajudar outra planta crescer”, disse outro discípulo.

Estar juntos num mesmo propósito é deixar que cada um cresça a sua maneira; este é o caminho dos que desejam comungar com Deus. 

O HOMEM CUJA HISTÓRIA ERA INESPLICÁVEL

Era uma vez um homem chamado Mojud. Ele vivia numa cidade onde havia conseguido um emprego como pequeno funcionário público, e tudo levava...