quinta-feira, 15 de dezembro de 2011

Maracá curumin


http://www.youtube.com/watch?feature=player_embedded&v=WdMuuOtabBQ#!

Nasci nesse rio
Foi o canto das águas
Que me fez cantador
Iara mãe d`'agua na cachoeira
Me ensinou como se canta amor

Passarada cantarola maracá já sai da toca
Que amanhã surgiu
Clareou lusil
Feriu boto na tocaia levou ferrão de arraia
Na beira do rio
Pescador sumiu
Lá da mata vem um grito
Indio tá aflito
Salve o indio que é voce
Indio quer viver

Carajás e Guajajaras
Ianomamis Amazônia nossa mãe gentil
Tocantins Brasil
Te tocantins Brasil
Te toca antes Brasil

Passarada cantarola maracá já sai da toca...


(Carlinhos Veloz)

quinta-feira, 1 de dezembro de 2011

One day Mullah Nasruddin wished to learn playing zurna (a kind off shrill pipe) and visited a zurna player.

"How much does it cost to learn playing zurna? asked Mullah Nasruddin".

"Three hundred akche (coin) for the first lesson and one hundred akche for the next lessons, asked zurna player".

"It sounds good, replied Mullah Nasruddin. We may start with second lesson. I was a shepherd when I was a young boy, so I already had some whistle experiences. It must be good enough for first lesson, isn't it?".

quinta-feira, 10 de novembro de 2011

CARREGANDO O PASSADO


Dois monges Zen, Kanzã e Ekidô caminhavam por uma estrada em direção a um mosteiro muito distante. Naquele dia tinha acontecido um forte temporal e pela estrada por onde viajavam havia muita lama.


Estavam próximos a uma aldeia quando perceberam uma linda jovem tentando atravessar a estrada, porém a água e a lama dificultava a sua travessia. Tudo indicava que ela não queria estragar o seu quimono de seda. 


Imediatamente Kanzã pegou a jovem no colo e a carregou para o outro lado da estrada.


Depois deste incidente, os dois monges prosseguiram em sua caminhada. Mantiveram-se em silêncio por todo o percurso. Quando já estavam se aproximando do templo onde passariam a noite, após um longo dia de caminhada, Ekidô, demonstrando grande ansiedade, não conseguindo mais se conter e perguntou:


Kanzã, Por que você carregou aquela jovem no colo para o outro lado da estrada? Nós, monges, não deveríamos fazer esse tipo de coisa.”


Kanzã respondeu com outra pergunta:


“Faz horas que coloquei aquela jovem no chão. Você ainda a está carregando?”

Contos de sabedoria

quinta-feira, 3 de novembro de 2011

AS LONGAS COLHERES


Era uma vez, num reino não muito distante daqui, havia um rei que era famoso tanto por sua majestade como por sua fantasia meio excêntrica.

Um dia ele mandou anunciar por toda parte que daria a maior e mais bela festa de seu reino. Toda a corte e todos os amigos do rei foram convidados.

Os convidados, vestidos nos mais ricos trajes, chegaram ao palácio, que resplandecia com todas as suas luzes.

As apresentações transcorreram segundo o protocolo, e os espetáculos começaram: dançarinos de todos os países se sucediam a estranhos jogos e aos divertimentos mais refinados.

Tudo, até o mínimo detalhe, era só esplendor. E todos os convidados admiravam fascinados e proclamavam a magnificência do rei.

Entretanto, apesar da primorosa organização da festa, os convidados começaram a perceber que a arte da mesa não estava representada em parte alguma.

Não se podia encontrar nada para acalmar a fome que todos sentiam mais duramente à medida que as horas passavam. Essa falta logo se tornou incontrolável. Jamais naquele palácio nem em todo o país aquilo havia acontecido.

A festa não parava de esforçar-se para atingir o auge, oferecendo ao público uma profusão de músicos maravilhosos e excelentes dançarinos.

Pouco a pouco o mal-estar dos espectadores se transformou numa surda mas visível contrariedade.

Ninguém no entanto ousava elevar a voz diante de um rei tão notável.

Os cantos continuaram por horas e horas. Depois foram distribuídos presentes, mas nenhum deles era comestível.

Finalmente, quando a situação se tornou insustentável, e a fome intolerável, o rei convidou seus hóspedes a passarem para uma sala especial, onde uma refeição os aguardava.

Ninguém se fez esperar. Todos, como um conjunto harmonioso, correram em direção ao delicioso aroma de uma sopa que estava num enorme caldeirão no centro da mesa.

Os convidados quiseram servir-se, mas grande foi sua surpresa ao descobrirem, no caldeirão, enormes colheres de metal, com mais de um metro de comprimento. E nenhum prato, nenhuma tigela, nenhuma colher de formato mais acessível.

Houve tentativas, mas só provocaram gritos de dor e decepção. Os cabos desmesurados não permitiam que o braço levasse à boca a beberagem suculenta, porque não se podiam segurar as escaldantes colheres a não ser por uma pequena haste de madeira em suas extremidades.

Desesperados, todos tentavam comer, sem resultado. Até que um dos convidados, mais esperto ou mais esfaimado, encontrou a solução: sempre segurando a colher pela haste situada em sua extremidade, levou-a à... boca de seu vizinho, que pôde comer à vontade. Todos o imitaram e se saciaram, compreendendo enfim que a única forma de alimentar-se, naquele palácio magnífico, era um servindo ao outro.


Que assim seja!


Histórias da Tradição Sufi (EDIÇÕES DERVISH).

quinta-feira, 27 de outubro de 2011

A ILHA DESERTA

Certa vez um homem muito rico, de natureza boa e generosa, queria que seu escravo fosse feliz. Para isso lhe deu a liberdade e um navio carregado de mercadorias.

"Agora você está livre", disse o homem. "Vá e venda esses produtos em diversos países e tudo o que conseguir por eles será seu".

O escravo liberto embarcou no navio e viajou através do imenso oceano. Não havia viajado muito tempo quando caiu uma tempestade. O barco foi arremessado violentamente contra os rochedos e se fez em pedaços; tudo o que havia a bordo se perdeu. Somente o ex-escravo conseguiu se salvar, porque, a nado, pode alcançar a praia de uma ilha próxima. Triste, abatido e só, nu e sem nada, o ex-escravo caminhou até chegar a uma cidade grande e bonita.

Muita gente se aproximou para recebê-lo, gritando:

"Bem-vindo, Bem-vindo! Longa vida ao rei!"

Trouxeram uma rica carruagem, onde o colocaram e escoltaram-no até um magnífico palácio. Lá muitos servos se reuniram ao seu redor, vestiram-no com roupas reais e todos se dirigiam a ele como soberano, em total obediência a sua vontade.

O ex-escravo, naturalmente, ficou feliz e, ao mesmo tempo, confuso. Ele desejava saber se estava sonhando ou se tudo o que via, ouvia e experimentava não passava de uma fantasia passageira.

Convenceu-se, finalmente, de que o que estava acontecendo era real. E perguntou a algumas pessoas que o rodeavam e de quem gostava, como havia chegado àquela situação.

"Afinal, disse, "sou um homem de quem vocês nada conhecem, um pobre e despido vagabundo que nunca viram antes. Como podem transformar-me em seu governante? Isto me causa muito mais espanto do que possa dizê-lo".

"Senhor", responderam, "esta ilha é habitada por espíritos. Há muito tempo eles rezaram para que lhes fosse enviado um filho do homem para governá-los, e suas preces foram atendidas. Todos os anos é enviado um filho do homem. Eles o recebem com grande dignidade e o colocam no trono. Porém seu 'status' e seu poder acaba quando se completa um ano. Então lhe tiram as vestes reais e o põem a bordo de um barco que o leva para uma grande ilha deserta. Lá, a não ser que antes tenha sido sábio e tenha se preparado para esse dia, não encontra amigos, não encontra nada, vê-se obrigado a passar uma vida aborrecida, solitária e miserável. Elege-se então um novo rei, e assim acontece ano após ano. Os reis que o antecederam foram descuidados e não pensaram. Desfrutaram plenamente de seu poder, esquecendo-se do dia em tudo acabaria".

Essas pessoas aconselharam ao ex-escravo a ser sábio e permitir que suas palavras permanecessem dentro de seu coração.

O novo rei ouviu tudo atentamente, e lamentou ter perdido o pouco tempo que havia passado desde que chegara à ilha.

Pediu ao homem de conhecimento que havia falado:

"Aconselhe-me, ó Espírito da Sabedoria, como devo preparar-me para os dias que chegarão no futuro".

"Nu você chegou até nós", disse o homem. "E nu será enviado à ilha deserta da qual lhe falei. Agora você é rei e pode fazer o que quiser. Por isso mande os trabalhadores à ilha e permita-lhes que construam casas, preparem a terra e tornem belas as redondezas. Os terrenos áridos devem ser transformados em campos frutíferos. As pessoas deverão ir viver lá e você estabelecerá um reino para si mesmo. Seus próprios súditos estarão esperando quando você chegar para dar-lhe as boas-vindas. O ano é curto, o trabalho é longo, seja diligente e energético".

O rei seguiu o conselho. Mandou trabalhadores e materiais para a ilha deserta, e antes de findar a vigência de seu poder a ilha se transformou num lugar fértil, aprazível e atraente.

Os governantes que o tinham precedido haviam antecipado o fim de seu tempo com medo, ou afastavam este pensamento se divertindo. Ele porém, o aguardava com alegria, uma vez que então poderia começar sobre uma base de paz permanente e felicidade.

O dia chegou. O escravo liberto que tinha sido feito rei foi despojado de sua autoridade. Ao perder seus trajes reais, perdeu também seus poderes. Nu, foi colocado num barco, e as velas inflaram em direção à ilha. Porém, quando se aproximou da praia, as pessoas que tinham sido enviadas antes para lá vieram para recebê-lo com música, canções e muita alegria. Fizeram-no seu governante, e ele viveu em paz.

Histórias da Tradição Sufi (Ed. Dervish 1993). 

quinta-feira, 6 de outubro de 2011

Deus é Mais Forte


Ibotity tinha subido numa árvore quando o vento soprou a árvore; a árvore se partiu, Ibotity caiu e quebrou a perna.

“A árvore é forte porque quebrou minha perna”, disse.

“O vento é mais forte do que eu”, disse a árvore.

Mas o vento disse que a colina era mais forte, já que ela podia parar o vento. Ibotity, é claro, pensou que a força estava na colina, porque ela podia parar o vento, o vento que partiu a árvore, a árvore que quebrou sua perna.

“Não”, disse a colina, enquanto explicava que o rato era mais forte, porque podia esburacar a colina.

“Eu posso ser morto pelo gato”, contestou o rato.

E assim Ibotity pensou que o gato deveria ser o mais forte.

“De jeito nenhum”, disse o gato, explicando que poderia ser apanhado por uma corda.

Ibotity achou que a corda devia ser a coisa mais forte. A corda, porém, explicou que podia ser cortada pelo ferro. Portanto o ferro era mais forte. O ferro, por sua vez, negou ser o mais forte, já que podia ser derretido pelo fogo.

Ibotity então pensou que o fogo devia ser o mais forte, porque ele derretia o ferro, o ferro que cortava a corda, a corda que prendia o gato, o gato que caçava o rato, o rato que esburacava a colina, a colina que parava o vento, o vento que partiu a árvore que quebrou a perna de Ibotity.

O fogo disse que era a água era mais forte. A água declarou que a canoa era muito mais forte, porque sulcava a água. Mas a canoa foi superada pela rocha, e a rocha pelo homem, e o homem pelo Mago, e o mago pela prova do veneno por Deus. Assim, Deus é mais forte de que tudo.

Ibotity pensou então que Deus podia vencer a prova que imobilizava o mago, que dominava o homem, que quebrava a pedra, que derrotava a canoa, que fendia a água, que apagava o fogo, que fundia o ferro, que partia a corda, que prendia o gato, que matava o rato, que esburacava a colina, que parava o vento que rachava a árvore que quebrou a perna de Ibotity.


Histórias da Tradição Sufi (Ed. Dervish).

quinta-feira, 29 de setembro de 2011

O Ermitão


Durante o reinado do rei Mabdar viveu na Babilônia um jovem chamado Zadig. Era formoso, rico e naturalmente de bom coração. No momento em que esta história começa, ele estava viajando a pé para ver o mundo e aprender filosofia e sabedoria.
Mas até esse momento tinha encontrado tanta miséria e suportado tantos e terríveis desastres que estava tentado a rebelar-se contra a vontade do céu e acreditar que a Providência, que rege o mundo, desdenhava o Bem e permitia que o Mal prosperasse. Neste triste estado de espírito estava ele caminhando um dia às margens do Eufrates. Por casualidade, encontrou um venerável ermitão cuja barba, branca como a neve, descia até a cintura. Em sua mão o ancião levava um rolo de pergaminho que lia com atenção. Zadig parou e fez-lhe uma reverência. O ermitão devolveu-lhe a saudação com um ar tão bondoso e tão nobre que Zadig sentiu curiosidade de falar com ele. Perguntou-lhe então o que ele estava lendo:
“É o Livro do Destino”, Disse o ermitão. “Você gostaria de ler este livro?”
Entregou o livro a Zadig, mas este, apesar de conhecer uma dezena de línguas, não pôde entender uma só palavra do livro.
Sua curiosidade foi aumentando.
“Você parece ter problemas”. Disse o bondoso ermitão.
“Sim, infelizmente tenho. E tenho razões para estar assim”.
“Se me permite”, disse o ancião, “eu o acompanharei. Quem sabe poderei ser-lhe útil. Ás vezes eu sou capaz de consolar os aflitos”.
Zadig sentiu um profundo respeito pela aparência, a barba branca e o pergaminho misterioso do velho ermitão, e percebeu que a conversa dele era de uma mente superior. O velho falou do destino, da justiça, da moral, do principal bem da vida, da debilidade humana, da virtude e do vício, com tal poder e eloquência que Zadig se sentiu atraído por uma espécie de encanto, e suplicou ao eremita que não o deixasse até que regressassem à Babilônia.
“Peço-lhe o mesmo favor”, disse o ermitão. “Prometa-me que, haja o que houver você permanecerá em minha companhia por alguns dias”.
Zadig prometeu, e juntos se puseram em marcha.
Naquela noite os viajantes chegaram a uma grande mansão. O eremita pediu comida e alojamento para ele e seu companheiro. O porteiro, que poderia ser confundido com um príncipe, os introduziu com um desdenhoso ar de boas-vindas. O chefe dos serventes lhes mostrou os magníficos aposentos, e então lhes foi permitido sentar-se em um canto da mesa, na qual estava o senhor da mansão, que nem se deu ao trabalho de olhá-los. Mesmo assim, iguarias em abundância lhes foram servidas, e depois de cear lavaram as mãos em uma bacia de ouro incrustada com esmeraldas e rubis. Foram então levados para passar a noite em um formoso aposento. Na manhã seguinte, antes de deixarem o castelo, um servente trouxe uma peça de ouro para cada um.
“O senhor da casa”, disse Zadig quando estavam caminhando, “parece ser um homem generoso, ainda que um pouco arrogante, e pratica uma nobre hospitalidade”.
Enquanto falava ele se deu conta de que uma espécie de bolsa grande que o eremita levava parecia agora abarrotada. Dentro dela estava a bacia de ouro incrustada de pedras preciosas que o velho havia furtado. Zadig ficou pasmo, mas não disse nada.
Ao meio-dia o eremita parou em frente a uma pequena casa onde vivia um rico avarento e, mais uma vez, pediu hospedagem. Um velho criado, usando um puído casaco, os recebeu muito grosseiramente, acomodou-os no estábulo e pôs diante deles umas poucas azeitonas meio estragadas, uns pedaços de pão dormido e cerveja muito amarga. O ermitão comeu e bebeu com o mesmo prazer que tivera na noite anterior. Quando terminaram o ermitão se dirigiu ao criado, que não havia tirado os olhos deles para assegurar-se de que nada roubariam, deu-lhe as duas peças de ouro que haviam recebido naquela manhã e agradeceu a sua atenção, acrescentando:
“Tenha a bondade de permitir que eu veja seu amo”.
O atônito servo os conduziu para dentro da casa.
“Poderosíssimo senhor”, disse o ermitão, “eu gostaria de apresentar meus humildes agradecimentos pela nobre maneira com que nos recebeu. Eu suplico que aceite esta bacia de ouro como demonstração de minha gratidão”.
O miserável avarento quase caiu da cadeira, de tão assombrado que ficou.
O ermitão, sem esperar que ele se recobrasse, retirou-se rapidamente com seu companheiro.
“Santo Pai”, disse Zadig, “o que significa tudo isso? Para mim você não se parece em nada aos outros homens. Você rouba uma bacia de ouro com jóias de um senhor que nos recebe magnificamente e a dá a um tacanho que o trata indignamente”.
“Meu filho”, replicou o ermitão, “esse poderoso senhor que só recebe os viajantes por vaidade e para ostentar suas riquezas de agora em diante se fará mais sábio, e, por outro lado, o miserável será ensinado a praticar a hospitalidade. Não se espante com nada, e siga-me”.
Zadig não sabia se estava tratando com o mais sábio ou com o mais tolo dos homens. Mas o ermitão falou com tal convicção que Zadig, preso à sua promessa, não teve outra escolha senão segui-lo.

Naquela noite chegaram a uma casa agradável, de aspecto simples, que não demonstrava sinais de fartura nem de avareza. O dono era um filósofo que havia abandonado o mundo e estudava, pacificamente, as leis da virtude e da sabedoria. Era um homem feliz e contente. Ele havia criado esse calmo refúgio para seu prazer e nele recebeu os estrangeiros com uma generosidade que não demonstrava sinais de ostentação. Ele mesmo os conduziu a um quarto confortável, onde os fez descansar alguns instantes, e então veio buscá-los para servir-lhes uma delicada ceia.
Nas conversas que mantiveram entre si, concordaram que os assuntos deste mundo nem sempre eram regulados pelas opiniões dos homens mais sábios. O ermitão, por sua parte, sustentava que os caminhos da Providência estavam envoltos em mistério e que os homens faziam mal em emitir julgamento sobre um universo do qual só conheciam uma parte muito pequena. Zadig se perguntava como uma pessoa que cometia atos tão loucos podia pensar tão corretamente.
Finalmente, depois de uma conversa tão agradável quanto instrutiva, o anfitrião conduziu os viajantes aos seus quartos e agradeceu ao céu por enviar dois visitantes tão sábios e virtuosos.
Ofereceu-lhes algum dinheiro, mas o fez com tanta franqueza que eles não puderam sentir-se ofendidos. O velho recusou e se despediu, pois desejava partir para a Babilônia ao nascer do dia. Separaram-se em tom cordial, e Zadig estava cheio de agradáveis sentimentos por um homem tão amistoso.

Enquanto estavam em seu quarto, Zadig e o ermitão passaram algum tempo elogiando o anfitrião. Ao amanhecer o ancião despertou seu companheiro, dizendo:
“Devemos ir. Mas enquanto todos ainda estão dormindo desejo deixar a este digno homem um sinal de minha estima. Com estas palavras, pegou uma tocha e deitou fogo a casa”.
Zadig começou a gritar horrorizado e teria impedido esse terrível ato, mas o ermitão, com uma força superior, o deteve. A casa se tornou uma fogueira, e o velho, que agora estava bem longe com seu companheiro, olhou calmamente para a pilha fumegante.
“Que o céu seja louvado”! Gritou. “A casa de nosso amável anfitrião está destruída de ponta a ponta”.
Ao ouvir estas palavras, Zadig não sabia se chorava ou se ria; se chamava o venerável de velhaco, se o golpeava ou se corria para longe dali, mas ele não fez nenhuma destas coisas. Ainda subjugado pela aparência superior do ermitão, seguiu-o contra a sua própria vontade até a hospedagem seguinte. Desta vez chegaram à residência de uma boa e caridosa viúva que tinha um sobrinho de 14 anos, sua única esperança e alegria. Ela fez tudo o que pôde pelos viajantes. Na manhã seguinte pediu a seu sobrinho que os guiasse na travessia de uma ponte em ruínas, perigosa de se cruzar. O jovem os conduziu ansioso por agradá-los.
“Venha”, disse o eremita, quando eles estavam no meio da ponte, “devo mostrar minha gratidão para com sua tia”.
Enquanto falava, ele pegou o jovem pelos cabelos e o atirou no rio. O jovem caiu, reapareceu por um instante na superfície da água e logo foi tragado pela corrente.
“Oh, monstro!” Exclamou Zadig. “Você é o mais detestável dos homens”!
“Você me prometeu ter mais paciência”, interrompeu o velho.  “Escute, Embaixo das ruínas daquela casa que a Providência achou conveniente pôr em chamas, o dono descobrirá um enorme tesouro; enquanto que o jovem, cuja existência a Providência cortou, teria matado a tia em um ano e a você em dois anos”.
“Quem lhe disse isto, bárbaro? Ainda que você tenha lido isso no Livro do Destino, quem lhe deu poder para afogar um jovem que nunca lhe fez nada?
Enquanto falava, Zadig viu que o ancião já não tinha mais barba e que seu rosto tinha se tornado jovem e belo. Seu traje de eremita havia desaparecido, quatro asas brancas cobriam a sua majestosa forma e brilhavam com ofuscante esplendor.
“Anjo do Céu”! Você então desceu do céu para ensinar a um mortal extraviado a submeter-se às leis eternas?”
“Os homens”, replicou o anjo Jezrael, “julgam todas as coisas sem conhecimento, e você é, de todos os homens, o mais merecedor de ser esclarecido. O mundo imagina que o jovem que acaba de perecer caiu por acidente na água e que a casa do homem rico se incendiou por acaso.A casualidade não existe, tudo é prova, castigo ou profecia. Frágil mortal, pare de questionar e de se rebelar contra o que você deveria adorar!
Depois de dizer estas palavras, o anjo alçou vôo até o céu e Zadig se prostou ajoelhado.
Histórias da Tradição Sufi (Ed. Dervish)

quarta-feira, 7 de setembro de 2011

Oração da Luz

Ó Deus, dai-me Luz em meu coração
e Luz em meu túmulo.
Luz quando escuto e Luz quando estou vendo,
Luz na minha pele,
Luz no meu cabelo,
Luz na minha carne e Luz nos meus ossos,
Luz diante de mim; Luz detrás de mim,
Luz à minha direita; Luz à minha esquerda
Luz acima de mim, Luz debaixo de mim.
Ó Deus, fazei crescer munha luz
e dai-me a grande Luz do todo.
Ó Tu, Misericordioso, dai-me Luz.
Ó Tu o Mais Compassivo.
Ó, Cheio de Graça.

quinta-feira, 25 de agosto de 2011

No dia do meu funeral



No dia em que levarem meu corpo morto
não penses que meu coração ficará neste mundo.
Não chores por mim, nada de gritos e lamentações
lembra que a tristeza é mais uma cilada do demônio.

Ao ver o cortejo passar, não grites: ‘ele se foi’
Para mim, esse será o momento do reencontro.
E quando me descerem ao túmulo, não digas: ‘adeus’
A sepultura é o véu diante da reunião no paraíso.

Ante a visão do corpo que desce
pensa em minha ascensão.
Que há de errado com o declínio do sol e da lua?
O que te parece declínio, é tão somente alvorada.

E ainda que o túmulo te pareça uma prisão,
e é ele que liberta a alma.
Toda semente que penetra na terra, germina.
Assim também há de crescer a semente do homem.

O balde só se enche de água
se desce ao fundo do poço.
Por que deveria José do Egito
reclamar do poço em que foi atirado?

Fecha a tua boca deste lado
e abre-a mais além.
Tua canção triunfará
no alento do não-lugar.

Extraído do livro: Poemas Místicos - Jalaludin RUMI (1207 – 1273)

quinta-feira, 4 de agosto de 2011

O Diabo e a Velha

Era uma vez uma velha mulher que se dirigia do campo a cidade de Amam para visitar seu neto. Era verão, e no encalorado e poeirente caminho encontrou-se com um homem de semblante cansado e ao mesmo tempo sinistro, que se cobria com um capote negro.

"Bom dia", disse a mulher, porque não tinha nada melhor para falar e as pessoas do campo sempre se cumprimentam entre si.

"E um mau dia para a senhora!", respondeu o homem.

"Que modo bem educado de se falar com as pessoas"! Disse a velha senhora. "Que tipo de homem é você para falar assim aos filhos de Adão?".

"Eu sou Lúcifer! E odeio os descendentes de Adão".

A velha mulher não ficou nem um pouco assustada.

"E por que você está a caminho da cidade grande?" - perguntou a velha.

"Oh, tem muitas coisas que posso fazer num lugar assim". Disse o diabo.

"Você não parece tão diabo assim e creio que posso igualar qualquer coisa que você faça, a qualquer hora".

"Muito bem, eu lhe darei três dias em Amam e se você puder fazer coisas piores do que eu, ai então deixarei a cidade tranqüila pelo resto dos meus dias".

Assim fecharam o trato e os dois chegaram juntos a cidade.

"Quando vai começar"? Perguntou o diabo, porque estava ansioso para ver umas maldades.

"Começarei logo, e você pode me observar, supondo que possa ficar invisível".

"Assim"? Perguntou o diabo.

E a velha se deu conta que o diabo tinha desaparecido de sua vista, ainda que pudesse sentir seu hálito quente no pescoço.

"Agora, mãos a obra", disse ele asperamente.

A velha se dirigiu a tenda de um dos maiores comerciantes de tecidos finos da cidade e sentou-se na entrada, pedindo ao comerciante que lhe mostrasse alguma peça de seda realmente boa.

"Tem que ser algo verdadeiramente insólito. Meu neto está enamorado de uma certa mulher casada e quer fazer-lhe um presente de que ela nunca se esqueça, de forma a abrandar o seu coração. Ela disse que só se entregará a ele se tiver uma peça da mais formosa seda que se possa encontrar".

"Para o que queres não é assunto meu, de modo que, por favor, não me contes os detalhe sórdidos", replicou o homem. Mas acontece que tenho aqui uma peça do mais fino tecido do mundo. Até outro dia havia duas peças. Então vendi uma para o Palácio Real, de forma que podes imaginar a qualidade e formosura do tecido".

Enquanto examinava o corte de seda a velha disse:

"É um tecido muito caro e é bem possível que o compre. Mas, como é que não estás tratando com o respeito que é devido a um cliente valioso?"

"Que queres dizer?", perguntou o comerciante.

"Ao menos deverias pedir um narguilé para mim, de maneira que eu possa fumar enquanto me decido"...

O mercador mandou buscar imediatamente um narguilé com carvão ardente no recipiente. Também colocou próximo à velha um prato de pastéis de mel, 'baklavas'.

Murmurando para si a velha manuseou o tecido, comeu os pastéis e, entre uma coisa e outra, deu umas tragadas no narguilé. De repente o comerciante percebeu consternado que ela havia passado um pouco de mel de seus dedos para o valioso tecido e, pior ainda, inclinado o cachimbo permitindo que uma brasa caisse na seda, fazendo um buraco na mesma.

"Ai, estúpida mulher!", exclamou o mercador. "Estás arruinando o tecido"!

"De modo algum. Tudo o que tenho a fazer é corta-lo de modo certo e assim eliminar a mancha e o buraco, porque vou comprá-lo de qualquer maneira. Quanto disseste que valia"?

"Cem dinares", disse ele, esperando fechar negócio em cinqüenta, mas a velha aceitou imediatamente sem regatear, pagou-lhe em dinheiro e se foi da tenda.

Quando descia a rua o diabo sussurrou ao seu lado:

"Eu não chamaria a isso um truque. É verdade que você lhe deu um pequeno susto, mas lhe pagou muito e, ele pensa que você é uma tola. Ele é mais diabo que você"!

"Silêncio!", ciciou a velha, "e tenha um pouco de paciência, por favor. Veja o que vou fazer agora.

Dizendo isso, a velha começou a perguntar as pessoas em um café até conseguir o endereço da casa do mercador de tecidos.

Era uma casa grande e de aparência opulenta. A velha se deteve ali, salmodiando orações, e logo chamou à porta.

A mulher do comerciante veio atender e perguntou:

"Quem está ai e o que deseja?"

"Que a paz esteja contigo, generosa dama", disse a velha dirigindo-se à janela, "sou apenas uma pobre mulher do campo que veio visitar o seu filho. Encontro-me aqui na rua bem na hora das minhas orações especiais e não posso achar um lugar tranqüilo e limpo para recitá-las".

A esposa do comerciante, convidou a piedosa mulher a entrar, conduzindo-a até uma espaçosa sala no andar térreo.

"Generosa mulher, como último favor, te peço um tapete de oração em que possa me ajoelhar".

A esposa do comerciante procurou ao redor, voltou com o 'sajjadah' de seu esposo e o entregou à velha.

A velha fingia dizer as orações enquanto a mulher do comerciante se retirava da sala. Então, a velha enrolou o tapete junto com o tecido que havia comprado e o devolveu com mil palavras e gestos de agradecimento e humildade. 

Ao sair da casa o diabo novamente lhe perguntou, irritado, "que tipo de jogo é esse?", a velha respondeu do mesmo modo que antes.

Quando o comerciante voltou para casa à noite e pegou seu tapete para fazer as suas orações, a peça de tecido caiu. Tinha a mesma marca e o mesmo buraco daquela que tinha sido vendida à velha mulher. A peça, ele lembrava, era um presente para uma mulher casada que, em troca, se entregaria ao seu neto...

Sua própria esposa! O comerciante arde em fúria, enquanto o diabo o contemplava, invisível, ele expulsou sua mulher de casa, recusando-se a escutar qualquer coisa que ela dissesse.

"Isto está melhor!", ria para si o diabo.

A velha seguia a perplexa esposa para ver aonde ela ia e, viu que corria para casa de sua prima, onde se jogou sobre uma cama soluçando amargamente e recusando-se a dar qualquer explicação a quem quer que fosse.

Na manhã seguinte a velha foi ver seu neto, um robusto jovem luxurioso, que não era melhor do que parecia ser.

"Vem, meu querido e formoso jovem", vou te apresentar uma dama bela e inteligente que está solitária e perplexa..." Ela levou o jovem até a casa onde a esposa do comerciante estava descansando e aproveitando-se da ansiedade e confusão da dama, insistiu para que os dois permanecessem juntos. Tal era a perplexidade de ambos que simplesmente se sentaram no aposento olhando um para o outro, como se houvessem sido hipnotizados pela velha.

A velha bruxa correu então à tenda do comerciante. Logo que a avistou ele começou a soluçar e golpear o peito, gritando:

"Oh, mensageira da má sorte! Por que me escolheste para ser o instrumento de sedução da milnha própria esposa, por meio do teu neto infernal e mal-nascido? Por que regressaste para me atormentar? Vá embora antes que eu te mate! E ainda disse muito mais no mesmo estilo.

A velha mulher se manteve firme até que o comerciante ficou sem fôlego e, então disse:

"Oh rei dos comerciantes! Realmente não tenho idéia do motivo de tuas palavras. A única coisa que posso dizer é que estou aqui para te pedir a devolução da minha seda, que parece deixei cair por um, descuido em tua casa. Mas, não há ninguém lá".

O diabo começou resfolegar na orelha da velha, quando escutou isso, sufocando de riso.
"Que?! Queres dizer que não era minha esposa que tinha de ser seduzida por meio da seda?".

"Claro que não ! O que aconteceu é que, por casualidade, encontrei tua casa quando estava procurando um lugar para rezar e, por negligência, deixei o tecido ali..." Quase fora de si com o que ainda lhe restava de sua fúria, com pesar e angustia pela injustiça que havia cometido contra sua esposa, o mercador exclamou:

"Oh, se eu pudesse fazer regressar a minha amada esposa!"

"Bem, pode ser que eu seja capaz de te ajudar nisto."

"Se pudesses fazê-la regressar, amável mulher, eu te daria mil dinares de ouro!

"Feito!", exclamou a velha bruxa e saiu precipitadamente da tenda.

"Não me diga que vai fazer um favor a alguém sua velha doida", sussurrou o diabo no seu ouvido.

"Afaste-se de mim, estúpido, deixa que uma verdadeira especialista possa fazer o seu trabalho!", guinchou a bruxa, enquanto um ar de total astúcia se espalhou sobre o seu rosto.

O diabo a seguiu furtivamente quando ela se dirigiu à prisão onde seu neto e a esposa do comerciante estavam detidos.

Assim que avistou o carcereiro na porta da prisão, a velha começou um jogo de astúcia e discussão.

"Oh vós, o mais nobre dos guardiães da justiça do rei! E pensar que na minha idade fui levada a isto... Mas, quem sabe, bom senhor, amável e ilustre cavalheiro, vós sejais capaz de me ajudar..." A velha mostrou um dinar de ouro e, o carcereiro começou a olhá-la com maior atenção.

"O que queres?", Perguntou asperamente.

"Somente que me seja permitida a entrada por alguns momentos para ver o meu neto, que foi, com certeza, justamente preso e entregue a vosso cargo, bravo defensor da justiça!".

"Bem, se tiveres outra moeda igual a esta quem sabe se posso arranjar alguma coisa"

Rápido como um raio, a velha lhe passou duas peças de ouro e o carcereiro a deixou entrar.

Assim que chegou ao calabouço onde o par de acusados estavam presos em celas contíguas, a velha se dirigiu ao lugar onde se encontrava a esposa do comerciante e destrancou a porta.

"Apressa-te, pega o meu manto e o meu véu e dá-me os teus, sai da prisão fingindo que sou eu e reúne-te ao teu esposo, isto é, se estás disposta a me recompensar por te haver salvo e fazer com que ele te perdoe".

"Tenho mil peças de ouro em casa. Isto será bastante?".

"Muito bem , isto será bastante, mas te advirto de que não voltes atrás na tua palavra, ou terei de dizer ao mercador que no fim de tudo eras realmente culpada", ameaçou a velha.

Desse modo a mulher do comerciante colocou as roupas da velha bruxa, que se vestiu como a jovem mulher. Então ela e seu neto ficaram no calabouço enquanto a mulher se apressava a regressar paa casa, onde encontrou seu esposo, que se encheu de alegria.

Nessa mesma tarde, de acordo com a lei, o magistrado examinador visitou o cárcere, averiguando se havia motivo verdadeiro para a prisão dos detidos. Quando chegou em frente à cela onde se encontrava a velha, perguntou:

"Por que prenderam estas pessoas?"

"Foram presas sob acusação imoralidade, senhor juiz."

A velha retirou o véu e choramingou:

"Nobre juiz, sou uma mulher de 90 anos de idade e este é o meu neto, que não tem mais do que 16 anos. Aqui estão os papéis para prová-lo. Estávamos sentados juntos, conversando inocentemente, quando algum infiel nos denunciou à polícia com esta acusação absurda. por favor, nobre senhor, ordene nossa libertação agora mesmo, porque já sofremos bastante."

O magistrado, furioso, voltou-se para o carcereiro e o policial encarregado do caso e gritou:

"É este o modo pelo qual a justiça é feita em nosso país? Libertem está anciã e o seu jovem neto imediatamente! E em seguida, disse à sua escolta: "Dêem dez chibatadas no carcereiro e no policial!"

Quando a velha mulher e o seu neto estavam se afastando da prisão, encontraram o diabo.

"Estou indo, porque depois de ver tal atuação sei que não posso competir com você!"

O diabo abriu suas asas e voou de volta a jehennúm, a morada infernal.

Esta é a razão pela qual não se vê maldade em Ammam, já que a velha mulher não se dispôs a tentar novamente.
Extraído do livro: Histórias da Tradição Sufi.

O HOMEM CUJA HISTÓRIA ERA INESPLICÁVEL

Era uma vez um homem chamado Mojud. Ele vivia numa cidade onde havia conseguido um emprego como pequeno funcionário público, e tudo levava...