quinta-feira, 27 de outubro de 2011

A ILHA DESERTA

Certa vez um homem muito rico, de natureza boa e generosa, queria que seu escravo fosse feliz. Para isso lhe deu a liberdade e um navio carregado de mercadorias.

"Agora você está livre", disse o homem. "Vá e venda esses produtos em diversos países e tudo o que conseguir por eles será seu".

O escravo liberto embarcou no navio e viajou através do imenso oceano. Não havia viajado muito tempo quando caiu uma tempestade. O barco foi arremessado violentamente contra os rochedos e se fez em pedaços; tudo o que havia a bordo se perdeu. Somente o ex-escravo conseguiu se salvar, porque, a nado, pode alcançar a praia de uma ilha próxima. Triste, abatido e só, nu e sem nada, o ex-escravo caminhou até chegar a uma cidade grande e bonita.

Muita gente se aproximou para recebê-lo, gritando:

"Bem-vindo, Bem-vindo! Longa vida ao rei!"

Trouxeram uma rica carruagem, onde o colocaram e escoltaram-no até um magnífico palácio. Lá muitos servos se reuniram ao seu redor, vestiram-no com roupas reais e todos se dirigiam a ele como soberano, em total obediência a sua vontade.

O ex-escravo, naturalmente, ficou feliz e, ao mesmo tempo, confuso. Ele desejava saber se estava sonhando ou se tudo o que via, ouvia e experimentava não passava de uma fantasia passageira.

Convenceu-se, finalmente, de que o que estava acontecendo era real. E perguntou a algumas pessoas que o rodeavam e de quem gostava, como havia chegado àquela situação.

"Afinal, disse, "sou um homem de quem vocês nada conhecem, um pobre e despido vagabundo que nunca viram antes. Como podem transformar-me em seu governante? Isto me causa muito mais espanto do que possa dizê-lo".

"Senhor", responderam, "esta ilha é habitada por espíritos. Há muito tempo eles rezaram para que lhes fosse enviado um filho do homem para governá-los, e suas preces foram atendidas. Todos os anos é enviado um filho do homem. Eles o recebem com grande dignidade e o colocam no trono. Porém seu 'status' e seu poder acaba quando se completa um ano. Então lhe tiram as vestes reais e o põem a bordo de um barco que o leva para uma grande ilha deserta. Lá, a não ser que antes tenha sido sábio e tenha se preparado para esse dia, não encontra amigos, não encontra nada, vê-se obrigado a passar uma vida aborrecida, solitária e miserável. Elege-se então um novo rei, e assim acontece ano após ano. Os reis que o antecederam foram descuidados e não pensaram. Desfrutaram plenamente de seu poder, esquecendo-se do dia em tudo acabaria".

Essas pessoas aconselharam ao ex-escravo a ser sábio e permitir que suas palavras permanecessem dentro de seu coração.

O novo rei ouviu tudo atentamente, e lamentou ter perdido o pouco tempo que havia passado desde que chegara à ilha.

Pediu ao homem de conhecimento que havia falado:

"Aconselhe-me, ó Espírito da Sabedoria, como devo preparar-me para os dias que chegarão no futuro".

"Nu você chegou até nós", disse o homem. "E nu será enviado à ilha deserta da qual lhe falei. Agora você é rei e pode fazer o que quiser. Por isso mande os trabalhadores à ilha e permita-lhes que construam casas, preparem a terra e tornem belas as redondezas. Os terrenos áridos devem ser transformados em campos frutíferos. As pessoas deverão ir viver lá e você estabelecerá um reino para si mesmo. Seus próprios súditos estarão esperando quando você chegar para dar-lhe as boas-vindas. O ano é curto, o trabalho é longo, seja diligente e energético".

O rei seguiu o conselho. Mandou trabalhadores e materiais para a ilha deserta, e antes de findar a vigência de seu poder a ilha se transformou num lugar fértil, aprazível e atraente.

Os governantes que o tinham precedido haviam antecipado o fim de seu tempo com medo, ou afastavam este pensamento se divertindo. Ele porém, o aguardava com alegria, uma vez que então poderia começar sobre uma base de paz permanente e felicidade.

O dia chegou. O escravo liberto que tinha sido feito rei foi despojado de sua autoridade. Ao perder seus trajes reais, perdeu também seus poderes. Nu, foi colocado num barco, e as velas inflaram em direção à ilha. Porém, quando se aproximou da praia, as pessoas que tinham sido enviadas antes para lá vieram para recebê-lo com música, canções e muita alegria. Fizeram-no seu governante, e ele viveu em paz.

Histórias da Tradição Sufi (Ed. Dervish 1993). 

quinta-feira, 6 de outubro de 2011

Deus é Mais Forte


Ibotity tinha subido numa árvore quando o vento soprou a árvore; a árvore se partiu, Ibotity caiu e quebrou a perna.

“A árvore é forte porque quebrou minha perna”, disse.

“O vento é mais forte do que eu”, disse a árvore.

Mas o vento disse que a colina era mais forte, já que ela podia parar o vento. Ibotity, é claro, pensou que a força estava na colina, porque ela podia parar o vento, o vento que partiu a árvore, a árvore que quebrou sua perna.

“Não”, disse a colina, enquanto explicava que o rato era mais forte, porque podia esburacar a colina.

“Eu posso ser morto pelo gato”, contestou o rato.

E assim Ibotity pensou que o gato deveria ser o mais forte.

“De jeito nenhum”, disse o gato, explicando que poderia ser apanhado por uma corda.

Ibotity achou que a corda devia ser a coisa mais forte. A corda, porém, explicou que podia ser cortada pelo ferro. Portanto o ferro era mais forte. O ferro, por sua vez, negou ser o mais forte, já que podia ser derretido pelo fogo.

Ibotity então pensou que o fogo devia ser o mais forte, porque ele derretia o ferro, o ferro que cortava a corda, a corda que prendia o gato, o gato que caçava o rato, o rato que esburacava a colina, a colina que parava o vento, o vento que partiu a árvore que quebrou a perna de Ibotity.

O fogo disse que era a água era mais forte. A água declarou que a canoa era muito mais forte, porque sulcava a água. Mas a canoa foi superada pela rocha, e a rocha pelo homem, e o homem pelo Mago, e o mago pela prova do veneno por Deus. Assim, Deus é mais forte de que tudo.

Ibotity pensou então que Deus podia vencer a prova que imobilizava o mago, que dominava o homem, que quebrava a pedra, que derrotava a canoa, que fendia a água, que apagava o fogo, que fundia o ferro, que partia a corda, que prendia o gato, que matava o rato, que esburacava a colina, que parava o vento que rachava a árvore que quebrou a perna de Ibotity.


Histórias da Tradição Sufi (Ed. Dervish).

O HOMEM CUJA HISTÓRIA ERA INESPLICÁVEL

Era uma vez um homem chamado Mojud. Ele vivia numa cidade onde havia conseguido um emprego como pequeno funcionário público, e tudo levava...